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A mostrar mensagens de 2018

Pompeios — a história sempre em actualização

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A arqueologia está sempre a trazer novos conhecimentos sobre o passado. As últimas descobertas em Pompeios trazem novidades em relação à data da erupção do Vesúvio, no ano 79 d.C. Um grafito encontrado numa habitação levará a datar a destruição de Pompeios pela erupção do vulcão, não no dia 24 de Agosto, como até agora se pensava através da narração de Plínio, mas em Outubro. Imagens copiadas  daqui e daqui Este grafito, encontrado numa casa que estava em restauro na altura, refere a data de 16 dias antes das calendas de Novembro, isto é, 17 de Outubro. Ora, segundo os arqueólogos, estas inscrições do quotidiano eram feitas em carvão vegetal o que, dadas as suas características, leva a concluir que só poderiam ter sido feitas cerca de uma semana antes da erupção, logo, a 24 de Outubro. Além disso, havia dois factos que, até agora, intrigavam os estudiosos: -  a análise das vítimas apontava para o uso de roupas quentes, o que não encaixava numa data de Verão, mas já de Outono;...

Da alegria e seus derivados — 2

1. Júbilo — do latim tardio iubilum , por via culta, significa “grande alegria”. O iubilum era um termo popular para designar o “grito de alegria”, uma “aclamação”; designava também o grito de guerra ou de vitória bem como o cântico de alegria nas celebrações religiosas . O verbo iubilare significava, em latim, “soltar gritos de alegria” e “cantar cânticos de alegria, em honra de Deus”. O português jubilar significa “encher de júbilo” e utiliza-se também para designar a aposentação dada a um professor (entre nós, usa-se apenas para os professores universitários, catedráticos, a quem se concede uma aposentação honrosa — em Espanha o termo é aplicado também a outros professores não universitários). Jubilação, professor jubilado. Há ainda o latim iubilaeus (vindo do hebraico, através do grego) que designa uma grande solenidade dos judeus celebrada de 50 em 50 anos. Daí o jubileu , ano jubileu , ano em que o Papa concede indulgências, em certas solenidades; o termo estendeu-se depo...

Da alegria e seus derivados — 1

1. Laetitia (substantivo) e laetus (adjectivo) eram, em latim, termos da vida rústica. O verbo arcaico “l aetare ” significava “ fertilizar ”, “adubar” a terra. Dizia-se que o animal era “ laetus ” e a terra era “ laeta ” para significar que o animal era gordo, que a terra era fértil. Ora isso eram sinais de contentamento para o agricultor, daí ter passado a designar esse estado de alma, essa satisfação. Se os animais eram férteis e a terra produtiva, certamente o agricultor daria um grito de alegria “ laetus clamor ”. Contém em si a ideia de “desabrochar”, logo, de “expansão de sentimentos”. O adjectivo laetus , depois da sonorização da  dental, deu o português ledo , que nos aparece no primeiro verso do soneto camoniano “aquela triste e leda madrugada” ou no episódio de Inês de Castro d’ Os Lusíadas , quando se diz que “a linda Inês” estava “naquele engano de alma ledo e cego” ensinando às ervinhas dos campos do Mondego o nome do seu príncipe amado, D. Pedro. Temos ainda o sub...

Curiosidades linguísticas - Rostrum

As palavras têm uma história, umas mais interessantes, outras menos... Rostrum era a palavra que designava o bico da ave — daí passou a designar também alguns objectos com a forma de bico, como “ esporão de navio”, “ponta da relha do arado”... Sendo uma palavra do género neutro, no plural é rostra. No Forum Romanum tinha o nome de   ROSTRA a tribuna de onde os oradores falavam ao povo porque estava ornamentada com os esporões ( rostra “as proas”) de bronze dos navios tomados ao inimigo na batalha de Âncio, no ano 338 a.C., durante a Guerra Latina. Coluna rostrata era uma coluna ornamentada com esporões — uma foi erigida no comitium em honra de  Duílio, o cônsul que venceu os Cartagineses numa batalha naval durante a 1ª Guerra Púnica. Também foi instituído um prémio pela captura de navios aos inimigos — era uma corona rostrata (uma coroa rostrata) enfeitada com pequenos esporões. Da ideia de “bico de pássaro”, r ostrum passou a designar também o focinho de qualquer anim...

Cultura Clássica em alta?

Estará a cultura clássica a ter, finalmente, a valorização que lhe é devida? Há, pelo menos, alguns sinais positivos. O exame nacional de 9º ano da disciplina de Português traz bons augúrios para a cultura greco-romana e para o conhecimento do nosso passado histórico. Vejamos: A prova é constituída por 4 grupos de questões. — No I Grupo, para testar a compreensão oral, o aluno tinha de  ouvir um texto informativo sobre o Templo Romano de Évora para depois responder a questões sobre o que ouviu. — O II Grupo é constituído por 3 textos.      - O texto A, extraído da obra pubicada na Faculdade de Letras de Coimbra “Espaços e Paisagens. Antiguidade Clássica e Herança Contemporânea”, fala dos monumentos da Antiguidade, destacando que já “na Grécia antiga, a experiência do turismo surge, desde os primórdios, associada à religião e ao património artístico e arquitetónico”, o que se comprova pelos textos dos autores da literatura grega e latina, que podem ser conside...

VALORIZAR A MEMÓRIA

Memória: palavra muito “fora de moda” neste mundo tecnológico, ligada mais à máquina do que à pessoa, numa crença errónea de que não é preciso memorizar quando o computador memoriza tudo, quando na internet há toda a informação... O texto que se apresenta foi publicado no Boletim de Estudos Clássicos , nº 24, em Dezembro de 1995. Muitos anos se passaram, mas poderia ter sido escrito hoje. Pela sua actualidade, transcreve-se, com algumas supressões: (Re)valorizar a Memória Breve reflexão pedagógico-didáctica Não vamos, de novo, discutir o problema da importância do latim e da cultura clássica num mundo virado para a tecnologia, que, no entanto, começa, lentamente, a valorizar as questões humanísticas, depois de ter concluído que não é possível a máquina substituir o homem, que uma "tecnologia desumanizada" levaria ao caos, ao desconforto moral, ao apagamento daquilo que é essencial a uma vida plenamente realizada: as emoções, os sentimentos, a relação humana. E é essa relação ...

Sobre didáctica das Línguas Clássicas

 Língua e cultura, a inter-relação indispensável Questões de didáctica da língua latina * Retomemos a "velha" questão do estudo da língua e do estudo da cultura, isto é, das questões linguísticas tratadas independentemente das questões culturais ou da inter-ligação de todas estas questões — as linguísticas e as culturais. A língua é, em primeiro lugar, comunicação, relação interpessoal, mas é também, e ao mesmo tempo, veículo de transmissão de uma cultura. Estudamos uma língua para podermos comunicar através dela, para podermos compreender o povo que a fala, para compreendermos os textos, para lermos as obras que usam esse código linguístico. Ora, se estudamos a língua enquanto elemento de cultura, então podemos perguntar se é possível separar os dois campos e estudar um sem estudar o outro. A língua é a expressão de um povo, só através dela se pode chegar ao conhecimento da cultura desse povo, do povo que a fala ou a falou. Mesmo falando a mesma língua, isto é usando o mesm...

Curiosidades linguísticas

Um anúncio de tratamento da calvície chamou-me a atenção para a palavra: alopécia , a queda do cabelo, por causas diversas. Curiosa a sua etimologia! Do grego ἀλώπηξ, ἀλώπεκος   que significa "raposa", (daí ἀλωπεκία ) chegou ao português através do latim alopex, alopecis "raposa" e alopecia com o significado de "queda dos cabelos e da barba" formando daí o português alopécia (seguindo a acentuação latina). A origem parece estar relacionada com o facto de a raposa ser um animal muito dado à queda do pêlo.

Os mitos são necessários ao nosso quotidiano

Carlos Garcia Gual, catedrático emérito de Filologia Grega da Universidade Complutense de Madrid, em entrevista de 1 de Março de 2018, que pode ser lida aqui, fala sobre “os mitos e a sua ausência na sociedade contemporânea”, afirmando que “ O ser humano sem fantasia está muito recortado e limitado” . Ele que é autor de um “Dicionário de Mitos” define-os deste modo: “ os mitos são grandes relatos que permanecem na memória colectiva, falam de personagens extraordinárias que realizaram façanhas ou feitos que de alguma maneira marcam o mundo. E por isso pertencem a um passado prestigioso e geralmente distante.” “ O saber dos mitos enriquece a imaginação, de modo que a gente que tem pouca cultura está muito limitada. O cinema tem sido um grande difusor de mitos, essencial para a mitologia do século XX.” À pergunta “ Que contributo pode dar um helenista à sociedade do século XXI” responde: “ Ser um introdutor ou um guia até esse mundo dos gregos antigos, fascinante pela sua riqueza literá...

As Línguas Clássicas em França

Quando confrontamos a situação actual das línguas clássicas no nosso sistema educativo com o que se passa noutros países, nomeadamente em França, torna-se ainda maior a nossa angústia ao verificar a distância que nos separa. No sistema educativo francês, os alunos que frequentam os anos correspondentes ao nosso 3º ciclo do Ensino Básico (o Collège) têm hipótese de escolher as disciplinas de Latim e de Grego, e são muitos os que o fazem (no ano lectivo de 2017-2018 frequentam as disciplinas de latim e de grego – colégio e liceu — 515 845 alunos). No entanto, uma reforma do anterior governo, que gerou protestos vindos de vários quadrantes, veio alterar bastante essa situação no Collège ao incluir as horas destinadas ao latim e ao grego numa “dotação complementar” que colocava a abertura de turmas na dependência dos directores de estabelecimento e na “concorrência” com outras disciplinas. Tudo está, porém, a mudar com o Ministro da Educação do governo actual, regressando um pouco ao que e...

Estudar Latim hoje — metodologias

Quando se fala na situação a que chegaram as línguas clássicas no nosso ensino secundário (e, por extensão, no superior), culpam-se, muitas vezes, as metodologias de ensino, incompatíveis com os dias de hoje, longe dos interesses dos jovens do século XXI. Os críticos, talvez recordando a forma “desastrosa” como aprenderam latim e a pouca atenção que dedicaram ao seu estudo, dizem que a culpa é dos professores (afinal, não são sempre os professores os culpados dos males do ensino?!) e dos métodos utilizados, que apelam, essencialmente, à memorização, à aprendizagem de regras sem sentido, ao estudo de frases soltas, infantis e ridículas, à luta inglória com um dicionário para dar forma, em português, a um texto antigo, cujo tema se desconhece, de um autor que parece ter sido inventado para tortura dos alunos. É esta a caricatura que se faz das aulas de latim de outros tempos, mas que em nada corresponde já ao que se passa nas escolas actuais, desde há muito. Longe vão os tempos em que o ...

Kalendis Ianuariis

Primeiro dia de um novo ano. No Dia das Calendas:  Calendis Ianuariis — nas Calendas de Janeiro. O dia das Calendas — Calendae, Calendarum — era o primeiro dia de cada mês. A palavra está relacionada com calo , verbo que significa "chamar", "convocar", talvez porque era o dia em que o Pontífice — Pontifex, Pontificis — convocava a população para anunciar os dias fastos e os nefastos. De Calendae/Kalendae deriva o vocábulo calendarium "calendário". O primeiro mês do ano é o Ianuarius , mês dedicado a Jano , deus da primitiva religião romana, representado com duas faces, uma olhando para trás, para o passado e outra que olhava em frente, para o futuro. Era considerado o deus das portas e de todas as entradas. Ianua, ianuae ( janua ) significa porta ; do seu diminutivo ianuella "pequena porta" deriva o português janela . A Jano foi dedicado um templo cujas portas estavam abertas em tempo de guerra e fechadas em tempo de paz. Uma antiga tradiç...