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Ifigénia - II

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Na sequência do post anterior ( aqui ). Na versão que Eurípides nos conta, Ifigénia, salva por Ártemis do sacrifício,  foi levada pela deusa para o país dos Tauros, tornando-se sacerdotisa no templo de Ártemis. É esse o tema tratado na tragédia de Eurípides "Ifigénia entre os Tauros" ou "Ifigénia Táuride". A Táurica ou Táurida corresponde à actual península da Crimeia . O nome que lhe deram os Gregos — Ταυρική Χερσόνησος (península Táurica) deriva do nome dos seus habitantes, os Tauros — Χερσόνησος, Quersoneso, significa, em grego, "península" — de νῆσος "ilha" + χέρσος "terra firme", "continental", daí "península", quer dizer, uma ilha ligada ao continente. Há também na Quersoneso Táurica uma cidade chamada Quersoneso. Os Tauros ( tauri , em latim), descendentes dos antigos cimérios, eram os habitantes da região meridional da Crimeia, mas o nome estendeu-se, depois, a todos os habitantes da península. Segundo a le...

Uma história em imagens — Ifigénia

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Na sequência do texto anterior ( aqui ) falarei hoje  de mais uma história contada em imagens. Trata-se da história de Ifigénia (em grego : Ἰφιγένεια, nome que tem na sua formação o advérbio ἶφι que significa "com força", "com valor" e o substantivo γένος "nascimento", "raça", "origem" — Ifigénia será, portanto, de uma origem cheia de força, de uma raça valorosa). Na mitologia grega, Ifigénia era a filha de Agamémnon e de Clitemnestra e foi sacrificada pelo pai para aplacar a ira de Ártemis que impedia a partida da armada para Tróia. Nas Metamorfoses conta-nos Ovídio que: "Quando a dor da afronta de um só assolou os Dánaos todos, mil navios encheram a baía de Áulis, defronte de Eubeia. Muito tempo aguardaram vento para a frota, mas vento algum  se ergueu, ou então era contrário. A Agamémnon cruel profecia ordena que sacrifique a inocente filha à desapiedada Diana. (Ovídio, Metamorfoses , XIII, 181-185 - tradução de Paulo Farmhous...

Pátroclo e Aquiles

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Os vasos gregos contam-nos histórias, construindo com as suas pinturas uma banda desenhada sem palavras. Um exemplo disto está no chamado “Vaso de Pátroclo”. Proveniente de Canosa de Puglia, é um cráter  ou cratera   (em grego κρατήρ, κρατῆρος ) de volutas, de figuras vermelhas, datado de 340-320 a.C., que foi encontrado, em 1861, numa sepultura subterrânea, ( hypogeum ) e que pode ser apreciado no Museu Arqueológico Nacional de Nápoles. Ao centro estão representadas as cerimónias fúnebres em honra de Pátroclo, o amigo de Aquiles que, na Guerra de Tróia, combatendo com as armas do próprio Aquiles (que se recusava a combater, depois da disputa com Agamémnon por causa de uma cativa), foi morto por Heitor. A legenda identifica a representação da gravura — Πατροκλου ταφος (Πατρόκλου τάφος) "funerais de Pátroclo": Ao centro a pira funerária com as armas do defunto (o capacete, o peitoral, o escudo e a protecção das pernas); do lado esquerdo, Aquiles  agarra um prisioneiro para ...

CATARATAS

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No post anterior falei de facectomia , a cirurgia às cataratas, e sua etimologia. E catarata ? Que relação existe entre este "opacidade" do cristalino (do olho) e as quedas de água? O vocábulo "catarata" chega-nos através do latim " cataracta " (catarata, comporta, represa) que, por sua vez, deriva do grego καταράκτης (= καταρράκτης ), "queda de água", da raiz do verbo καταρρέω "cair, desabar, cair para baixo". Ora, segundo Hipócrates, a "opacidade do cristalino que impede a chegada dos raios luminosos à retina" deriva da queda de um líquido que escorre do cérebro para os olhos. Daí o nome "catarata".

FACECTOMIA

A história das palavras é sempre fascinante. Procurar o étimo de cada vocábulo leva-nos a uma viagem sempre enriquecedora. Assim, uma "simples" operação às cataratas de uma amiga, levou-me a procurar a designação científica deste tipo de cirurgia — trata-se de uma facectomia . Ora, diz-nos o dicionário que o termo facectomia vem de φακός, termo que em grego significava "lentilha" (e φακός, εἴδος - quer dizer, em forma de lentilha), o nome científico do cristalino do olho, pela sua forma certamente. O cristalino é uma lente ocular, que, quando se torna opaca, tem de ser removida através de uma cirurgia — a facectomia . Por outro lado, em latim lens, lentis significava "lentilha"; daqui deriva o disco de vidro , a lente em português; do  diminutivo latino " lenticula " (uma pequena lentilha)  deriva o português " lentilha ". Portanto, o termo corrente, lente , e o termo médico para o cristalino do olho (uma lente) têm origens diferent...

Alma mater - etimologias

No dia 1 de Março de 1290, o rei D. Dinis cria os Estudos Gerais, em Lisboa (que mais tarde se fixarão em Coimbra), com o diploma "Scientiae Thesaurus Mirabilis". Esta data marca o nascimento da Universidade de Coimbra. À universidade se chama, muitas vezes, Alma Mater . O que significa isto? " Alma " é um adjectivo latino, no género feminino, que significa "alimentadora, criadora, maternal". O adjectivo está, nesta expressão, a classificar " mater " (= mãe). Assim, a Universidade é a "mãe alimentadora", "a mãe que alimenta". Tal como a mãe alimenta um filho, assim a Universidade alimenta o espírito dos seus alunos. Este adjectivo pertence à mesma família do verbo alo, alis, alere que significa "alimentar", "fortificar". É derivado deste o substantivo alumnus (que deu o português " aluno "). O vocábulo alumnus designava, em latim, a criança de peito (que era alimentada pela mãe), daí a design...

Saber Latim - língua de cultura

"O Latim não é simplesmente um idioma, é uma porta para o conhecimento" — afirma Emílio del Rio, professor de Filologia Latina na Universidade Complutense de Madrid, ao jornal El Correo , de Miranda do Ebro, de 24 de Fevereiro de 2023 (a notícia pode ser lida aqui ). Na verdade, "não é possível falar de cultura sem falar dos clássicos, da cultura greco-latina, a semente e a raiz de todos os saberes. Da filosofia à retórica e ao direito, das artes plásticas à poesia, os autores gregos e romanos são a fonte onde sucessivas gerações vão beber. E nenhum modernismo ou choque, artístico ou tecnológico, pode sequer pensar em pôr de parte esta herança milenar que, sempre, ainda quando abertamente negada e atacada, está na base de qualquer conhecimento, actualizado e renovado em todas as épocas" (I. M. 2008). E, como diz o professor Emílio del Rio: "Leer a los autores clásicos es el mejor manual de autoayuda que puedas encontrar, pero de autoayuda real para tu día a d...