Mensagens

A mostrar mensagens de junho, 2010

Dia de Camões

Hoje celebramos Camões. Talvez a muitos só interesse o feriado e pouco ou nada a obra do poeta. Esses ele não cantaria na sua obra. Não mais, Musa, não mais, que a Lira tenho Destemperada e a voz enrouquecida, E não do canto, mas de ver que venho Cantar a gente surda e endurecida. O favor com que mais se acende o engenho Não no dá a pátria, não, que está metida No gosto da cobiça e na rudeza De uma austera, apagada e vil tristeza. Os Lusíadas , Canto X, estância 145 Teria o poeta matéria para o seu canto nos tempos de hoje? Vejamos as suas palavras: Nem creiais, Ninfas, não, que fama desse A quem ao bem comum e do seu Rei Antepuser seu próprio interesse, Inimigo da divina e humana Lei. Nenhum ambicioso, que quisesse Subir a grandes cargos, cantarei, Só por poder com torpes exercícios Usar mais largamente de seus vícios; Nenhum que use de seu poder bastante Para servir a seu desejo feio, E que, por comprazer ao vulgo errante, Se muda em mais figuras que Proteio. Nem, Camenas, também cui...

O Fio de Ariadne

O Fio de Ariadne — O Labirinto — O Minotauro Três expressões que estão intimamente ligadas, três expressões que nos remetem para a mitologia clássica e que muitas vezes ouvimos, associadas a realizações e a situações diversas. Estamos em Creta, num tempo indefinido, como é característico dos mitos. Reinava Minos , casado com Pasífaa. Minos possuía um belo touro que lhe tinha sido oferecido por Posídon, senhor dos mares, para que ele lho sacrificasse. O rei, porém, encantado com a beleza do animal não o sacrificou. Posídon, furioso com a sua desobediência, castiga-o da pior maneira: faz com que Pasífaa se apaixone pelo touro e desse amor nasça um monstro, meio touro, meio homem, o Minotauro . Para proteger a população de Creta da fúria deste ser monstruoso, Minos chamou um famoso arquitecto, Dédalo , e encarregou-o de construir um espaço para encerrar o Minotauro do qual ele não pudesse escapar. Dédalo constrói o Labirinto onde o monstro foi encerrado. Ora, este monstro só se alimenta...

In Memoriam

Faleceu João Aguiar. O jornalista, o escritor, o exímio cultor da língua portuguesa que nos deliciava com as suas crónicas de fina ironia, com o seu espírito crítico sempre atento, com as suas narrativas que entusiasmavam o leitor, faleceu hoje, com 66 anos de idade. Recordamos, a propósito do título deste blog,  e porque permanece actual, um texto seu de 2005: " Há já algum tempo, Isabel II de Inglaterra, falando em público, referiu-se a um ano particularmente doloroso para a monarquia britânica chamando-lhe annus horribilis . Não tardou que um jornalista português escrevesse, em tom chocarreiro, que a rainha, para disfarçar as embrulhadas da família, recorrera ao "latinório". Latinório. É um termo muitíssimo expressivo. Usado essencialmente pelos labregos que ficam nervosos quando têm de ler qualquer coisa, nem que seja um boletim meteorológico, e também pelos analfabetos funcionais, mais bem vestidos que os anteriores mas igualmente primitivos sob o seu débil verniz, ...

Aurea Mediocritas

Recta vida, Licínio, crê, não há-de ser sempre navegar no alto mar, nem, temendo de mais a tempestade, só perto dos rochedos navegar... Quem 'scolhe a regra de ouro mediana é que evita afinal, com segurança, tanto o horror da sórdida choupana como o palácio cuja luz nos cansa. O pinheiro mais alto é que mais vezes p'la fúria do vento é açoutado; tombam as torres em razão do peso; dos montes só o cimo é fulminado. Sabe que o peito forte, na fortuna, é que teme a desgraça; mas, na treva, não deixa de ter esp'rança... Tudo muda: o Inverno Jove o traz; depois o leva... O bem pode nascer do mal de agora. Às vezes, quando menos se imagina, Apolo com a lira a Musa acorda; e nem sempre seu arco ele utiliza. É ante o infortúnio que valente e mais firme te deves ir mostrando. Segura bem as velas, se és prudente, quando o vento demais as for inchando... HORÁCIO, Odes (tradução de David Mourão-Ferreira)

A actualidade do Latim

Para provar a actualidade do Latim basta, por vezes, folhear a imprensa, ou até, mais actualizado ciberneticamente, percorrer algumas páginas da Internet. Parece mais uma questão de moda. No momento em que o estudo da língua latina está tão afastado do nosso sistema de ensino,  a sociedade em geral e os meios de comunicação em particular, estão com uma enorme apetência para a língua latina, com citações, com os nomes dados às mais diversas criações artísticas e outras. Ainda agora, numa simples passagem pelos blogs da sapo, dois nomes me chamaram a atenção: aurea mediocritas e o fio de Ariadne . É a língua latina e a cultura clássica a dar o mote para algumas páginas de escrita acerca de assuntos variados. O fio de Ariadne remete-nos para a mitologia grega, lembra-nos o labirinto de Creta, o mito do Minotauro e as façanhas de Teseu. É também uma história de amor e de traição, de valentia e de coragem, de luta pela justiça. Este fio permitiu a Teseu encontrar a saída do lab...