Aurea Mediocritas
Recta vida, Licínio, crê, não há-de
ser sempre navegar no alto mar,
nem, temendo de mais a tempestade,
só perto dos rochedos navegar...
Quem 'scolhe a regra de ouro mediana
é que evita afinal, com segurança,
tanto o horror da sórdida choupana
como o palácio cuja luz nos cansa.
O pinheiro mais alto é que mais vezes
p'la fúria do vento é açoutado;
tombam as torres em razão do peso;
dos montes só o cimo é fulminado.
Sabe que o peito forte, na fortuna,
é que teme a desgraça; mas, na treva,
não deixa de ter esp'rança... Tudo muda:
o Inverno Jove o traz; depois o leva...
O bem pode nascer do mal de agora.
Às vezes, quando menos se imagina,
Apolo com a lira a Musa acorda;
e nem sempre seu arco ele utiliza.
É ante o infortúnio que valente
e mais firme te deves ir mostrando.
Segura bem as velas, se és prudente,
quando o vento demais as for inchando...
HORÁCIO, Odes (tradução de David Mourão-Ferreira)
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