As andorinhas e o mito
Na Ode IX de Camões — Fogem as neves frias — Ode da Primavera, da passagem do tempo, das estações do ano, inspirada nas Odes de Horácio sobre as estações do ano, lemos estes versos:
Zéfiro brando espira;
suas setas Amor afia agora;
Progne triste suspira
e Filomela chora;
o Céu da fresca terra se enamora.
Segundo o poeta, Progne suspira e Filomela chora. Porquê?
Progne, ou Procne e Filomela são duas figuras da mitologia grega relacionadas com uma história trágica, de violência, traição, vingança e morte.
Eram duas irmãs, Procne e Filomela, filhas de Pandíon, rei de Atenas. Quando o soberano ateniense andava em guerra com o rei tebano, Lábdaco (este Lábdaco era neto de Cadmo, o fundador de Tebas, que ali chegou quando procurava a sua irmã Europa, a jovem que foi raptada por Zeus, disfarçado num touro branco), teve a ajuda preciosa de Tereu, rei da Trácia, que foi essencial para a vitória. Como agradecimento, ofereceu-lhe em casamento a sua filha Procne, que algum tempo depois deu à luz um filho de ambos, Ítis.
Procne, vivendo agora longe da sua terra, disse um dia ao marido que tinha muitas saudades da sua irmã Filomela e que gostaria de a ver. Tereu dirigiu-se, então, a Atenas para buscar a cunhada Filomela e levá-la a passar algum tempo com a irmã. Acontece que, ao ver a jovem de tão grande beleza, Tereu foi atacado de uma paixão malvada e no regresso à sua terra, apesar dos protestos de Filomela, violou-a e, foi mais longe na sua malvadez: para impedir que ela contasse à irmã cortou-lhe a língua. Após a chegada a casa, escondeu Filomela num local isolado e levou a mulher a pensar que a irmã tinha morrido. Então Filomela, visto que não podia falar, descobriu uma forma de revelar à irmã o que tinha acontecido: contou, através de uma teia que bordou, tudo o que Tereu lhe tinha feito, e fez chegar esse trabalho, secretamente, à sua irmã.
Procne, furiosa pela traição e pela violência do marido, vai encontrar-se com a irmã e engendra um plano que, com a ajuda de Filomela, irá punir Tereu da forma mais cruel possível. Mata o próprio filho, Ítis e serve-o num banquete a Tereu.
Quando Tereu descobre, desvairado pela dor, persegue-as com um machado, mas os deuses, compadecidos, transformam-nas em aves: Filomela em andorinha e Procne em rouxinol. O poeta romano Ovídio, nas suas Metamorfoses, faz um longo relato deste mito, descrevendo o horror da violência sobre Filomela, o horror do crime da mãe que mata o próprio filho para se vingar do marido, o sofrimento de Tereu ao saber a verdade.
Tereu foi também metamorfoseado em poupa:
" Ele, correndo bem veloz pela dor e ânsia de vingança,
transforma-se em pássaro que tem uma crista na cabeça,
e é um imenso bico que se espeta em vez da longa lança.
[É a poupa, cuja cabeça parece armada para a guerra].
Ovídio, Metamorfoses, VI, 671-674.


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