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VERÃO - 2

P or falar em Verão , é interessante ver a origem desta palavra. Entre os Romanos falava-se nas quatro estações deste modo: ver, veri s: a primeira estação quente, depois do Inverno; aestas, aestatis : o bom tempo, a estação do grande calor; autumnus, autumni : o Outono; hiems, hiemis : o Inverno. É fácil verificar como autumnus deu em português outono , com a mesma correspondência de tempo.   Hiems deu em português vocábulos pouco usados, como hiemal  , "que se produz no inverno", ou hiemação, que se refere à propriedade de certas plantas florescerem no inverno. De aestas vem o português estio , que designa, precisamente, o tempo quente e estiagem , tempo sereno e seco, que vem depois das chuvas do inverno; tal como o verbo  estiar , que significa "parar de chover". Em português chamava-se Estio a essa estação do tempo quente e seco, e ainda no século XVI era designado desse modo o tempo a que agora chamamos Verão. Assim dizia Camões n' Os Lusíadas, faze...

VERÃO

Hoje temos um quente dia de Verão. Não admira, é o tempo. Há uns dias já que entrámos no solstício de Verão. Esta nota vem um pouco atrasada, mas é sempre tempo, e vem sempre a propósito, falar da nossa língua e da sua origem. Solstício vem do latim solstitium.   [ Na passagem para o português é comum este fenómeno fonético: o grupo -ti-  passa a - ci -; aliás, na pronúncia do latim dita "pronúncia tradicional" esta sequência é lida como o nosso grupo ci . Alguns exemplos: latim ini ti um - português: iní ci o ; nego ti um - português: negó ci o; o ti um > ó ci o; silen ti um > silên ci o; etc.] Voltando ao solstitium . A palavra latina é formada de sol + stitium   (dos verbos  sisto e sto  com o sentido de parar) . Então solstício quer dizer, literalmente, a paragem do Sol . Na verdade, designa-se assim o tempo e o ponto da elíptica em que o Sol parece estacionário durante alguns dias, quando chega aos trópicos, antes de começar, de novo, a a...

Dia de Camões

Hoje celebramos Camões. Talvez a muitos só interesse o feriado e pouco ou nada a obra do poeta. Esses ele não cantaria na sua obra. Não mais, Musa, não mais, que a Lira tenho Destemperada e a voz enrouquecida, E não do canto, mas de ver que venho Cantar a gente surda e endurecida. O favor com que mais se acende o engenho Não no dá a pátria, não, que está metida No gosto da cobiça e na rudeza De uma austera, apagada e vil tristeza. Os Lusíadas , Canto X, estância 145 Teria o poeta matéria para o seu canto nos tempos de hoje? Vejamos as suas palavras: Nem creiais, Ninfas, não, que fama desse A quem ao bem comum e do seu Rei Antepuser seu próprio interesse, Inimigo da divina e humana Lei. Nenhum ambicioso, que quisesse Subir a grandes cargos, cantarei, Só por poder com torpes exercícios Usar mais largamente de seus vícios; Nenhum que use de seu poder bastante Para servir a seu desejo feio, E que, por comprazer ao vulgo errante, Se muda em mais figuras que Proteio. Nem, Camenas, também cui...

O Fio de Ariadne

O Fio de Ariadne — O Labirinto — O Minotauro Três expressões que estão intimamente ligadas, três expressões que nos remetem para a mitologia clássica e que muitas vezes ouvimos, associadas a realizações e a situações diversas. Estamos em Creta, num tempo indefinido, como é característico dos mitos. Reinava Minos , casado com Pasífaa. Minos possuía um belo touro que lhe tinha sido oferecido por Posídon, senhor dos mares, para que ele lho sacrificasse. O rei, porém, encantado com a beleza do animal não o sacrificou. Posídon, furioso com a sua desobediência, castiga-o da pior maneira: faz com que Pasífaa se apaixone pelo touro e desse amor nasça um monstro, meio touro, meio homem, o Minotauro . Para proteger a população de Creta da fúria deste ser monstruoso, Minos chamou um famoso arquitecto, Dédalo , e encarregou-o de construir um espaço para encerrar o Minotauro do qual ele não pudesse escapar. Dédalo constrói o Labirinto onde o monstro foi encerrado. Ora, este monstro só se alimenta...

In Memoriam

Faleceu João Aguiar. O jornalista, o escritor, o exímio cultor da língua portuguesa que nos deliciava com as suas crónicas de fina ironia, com o seu espírito crítico sempre atento, com as suas narrativas que entusiasmavam o leitor, faleceu hoje, com 66 anos de idade. Recordamos, a propósito do título deste blog,  e porque permanece actual, um texto seu de 2005: " Há já algum tempo, Isabel II de Inglaterra, falando em público, referiu-se a um ano particularmente doloroso para a monarquia britânica chamando-lhe annus horribilis . Não tardou que um jornalista português escrevesse, em tom chocarreiro, que a rainha, para disfarçar as embrulhadas da família, recorrera ao "latinório". Latinório. É um termo muitíssimo expressivo. Usado essencialmente pelos labregos que ficam nervosos quando têm de ler qualquer coisa, nem que seja um boletim meteorológico, e também pelos analfabetos funcionais, mais bem vestidos que os anteriores mas igualmente primitivos sob o seu débil verniz, ...

Aurea Mediocritas

Recta vida, Licínio, crê, não há-de ser sempre navegar no alto mar, nem, temendo de mais a tempestade, só perto dos rochedos navegar... Quem 'scolhe a regra de ouro mediana é que evita afinal, com segurança, tanto o horror da sórdida choupana como o palácio cuja luz nos cansa. O pinheiro mais alto é que mais vezes p'la fúria do vento é açoutado; tombam as torres em razão do peso; dos montes só o cimo é fulminado. Sabe que o peito forte, na fortuna, é que teme a desgraça; mas, na treva, não deixa de ter esp'rança... Tudo muda: o Inverno Jove o traz; depois o leva... O bem pode nascer do mal de agora. Às vezes, quando menos se imagina, Apolo com a lira a Musa acorda; e nem sempre seu arco ele utiliza. É ante o infortúnio que valente e mais firme te deves ir mostrando. Segura bem as velas, se és prudente, quando o vento demais as for inchando... HORÁCIO, Odes (tradução de David Mourão-Ferreira)

A actualidade do Latim

Para provar a actualidade do Latim basta, por vezes, folhear a imprensa, ou até, mais actualizado ciberneticamente, percorrer algumas páginas da Internet. Parece mais uma questão de moda. No momento em que o estudo da língua latina está tão afastado do nosso sistema de ensino,  a sociedade em geral e os meios de comunicação em particular, estão com uma enorme apetência para a língua latina, com citações, com os nomes dados às mais diversas criações artísticas e outras. Ainda agora, numa simples passagem pelos blogs da sapo, dois nomes me chamaram a atenção: aurea mediocritas e o fio de Ariadne . É a língua latina e a cultura clássica a dar o mote para algumas páginas de escrita acerca de assuntos variados. O fio de Ariadne remete-nos para a mitologia grega, lembra-nos o labirinto de Creta, o mito do Minotauro e as façanhas de Teseu. É também uma história de amor e de traição, de valentia e de coragem, de luta pela justiça. Este fio permitiu a Teseu encontrar a saída do lab...

De inocente a culpado

Voltando à etimologia: O vocábulo português inocente deriva do particípio presente latino de um verbo composto com o prefixo in- . O verbo simples nocere significa "fazer mal a alguém", "prejudicar". Então, nocentes são aqueles que fazem mal a alguém, que prejudicam os outros; o contrário destes é o innocens , aquele que não faz mal, que é inofensivo. Em português temos apenas o vocábulo na negativa:  inocente é, portanto, aquele que não prejudica ninguém, que não faz mal, inofensivo e, assim, honesto, virtuoso . À mesma família pertence o adjectivo innocuu s , com o mesmo significado de inocente, inofensiv o, inócuo , o contrário deste, nocivus , que significa  nocivo, perigoso e o substantivo innocentia . O adjectivo noxius , bem como o seu contrário  innoxius e o substantivo noxa , são palavras da mesma família lexical. Daí os compostos portugueses: obnóxio, inóxio, abnóxio .

O significado das palavras

A etimologia, isto é, o estudo da origem das palavras, ajuda-nos a perceber o seu significado e a discernir, muitas vezes, a sua especificidade. Há, na nossa língua, palavras que, à primeira vista, parece que nada têm a ver umas com as outras. No entanto, se procurarmos a sua origem, veremos que têm uma raiz comum. Assim, à primeira vista, parece que as palavras "pecuária" e "pecuniário" nada têm em comum. Pois se "pecuária" se refere à criação e tratamento de gado e se "pecuniário" diz respeito a  dinheiro, que semelhança pode haver entre elas? É aqui que a língua e a cultura latinas nos ajudam a perceber que em ambos estes vocábulos está a palavra "pecus", que em latim significa "gado", "cabeça de gado". Não admira, então, a palavra "pecuária". Ora, antes do aparecimento da moeda, a riqueza media-se pelo número de cabeças de gado, daí a palavra latina "pecunia", que significa "riqueza"...

E Pluribus Unum

Festeja-se a vitória do Benfica. O Benfica é campeão. Por isso recordamos o seu lema: e pluribus unum . Trata-se de uma expressão latina, adaptada de um poema que faz parte da "Appendix Virgiliana", uma colecção de poemas latinos, poemas curtos, na sua maior parte da época de Virgílio, o grande poeta do século de Augusto (século I a.C.). Muitos destes poemas foram atribuídos a Virgílio, mas não é certo que a maior parte deles seja, verdadeiramente, do grande épico, autor da Eneida . Nessa colectânea há um poema com o título " Moretum ", nome de uma iguaria, certamente muito apreciada na época, feita de erva, alho, queijo e vinho. No poema, do género épico e ligeiramente paródico, fala-se de um agricultor que prepara a sua comida, com os produtos que trouxe da horta, e se dispõe para uma nova jornada de trabalho. A mistura dos ingredientes dá ao seu prato um colorido especial, de tal modo que as muitas cores se dissolvem e parecem formar uma só, "color est e plu...

Estudar latim — Para quê? (2)

Sendo o Latim a língua-mãe do português, o seu estudo é necessário para melhor compreendermos a nossa língua. Saber latim ajuda-nos a enriquecer o nosso vocabulário, fortalece as nossas competências na língua materna, quer ao nível da compreensão, quer ao nível da expressão escrita. O estudo dos textos latinos desenvolve as nossas capacidades de análise, de reflexão sobre a língua, tão úteis no quotidiano em todas as situações de leitura e de escrita. E a par do estudo da língua latina está o estudo da cultura, a cultura greco-romana que enforma toda a cultura ocidental. A língua latina está sempre a ser usada mesmo por aqueles que nunca a estudaram ou que dizem que o seu estudo não é necessário. Quando dizemos que alguém não entrou na Universidade por causa do "numerus clausus" ou vamos fazer um exame "ad hoc", ou aderimos ao "simplex" do governo para acabar com a burocracia, estamos a falar latim. Um suspeito de crime apresenta o seu "alibi", e...

Estudar Latim — Para quê?

Muitos perguntarão, certamente, para que serve estudar uma língua que não se fala. Nada mais errado. A língua latina, para além de ser uma língua de cultura, continua a ser falada e escrita em muitas circunstâncias. Na Finlândia, um país que não fala uma língua de origem latina, há um noticiário radiofónico em latim, com notícias da actualidade — pode ser consultado em yleradio1.fi/nuntii . Muitas são as páginas da internet escritas em latim, o face book também pode ser consultado em latim, etc. E todos os anos há vários seminários de férias onde só se fala em latim. E isto acontece mais nos países de língua germânica do que nos países de língua derivada do latim.