Ode da Primavera

Hoje lembro o poeta Horácio e a sua Ode à Primavera ( em tradução de M.H. da Rocha Pereira).  O poeta compara a natureza à vida dos homens: na natureza tudo se renova cada ano, mas a vida humana caminha sempre em direcção ao fim, por isso é preciso aproveitar cada dia e cada hora.

Foram-se as neves e aos campos já a relva regressa

          e às árvores a folhagem;

a terra muda a sua face, e, deixando as margens,

          os rios decrescem.

Uma Graça mais as duas irmãs, nuas, ousam dançar

          com as Ninfas.

Não esperes pela imortalidade, adverte-te o ano e a hora

          que arrebata o dia criador.


Ao sopro dos Zéfiros, abranda o frio; à Primavera sucede

          o Verão perecedouro, e logo

o copioso Outono espalhará seus frutos; de seguida

           a bruma inerte regressa.


Porém o suceder das Luas depressa repara os danos vindos do céu.

          Mas nós, logo que tombamos

no lugar onde está o piedoso Eneias, o opulento Tulo e Anco,

          mais não somos do que pó e sombra.


Quem sabe se à soma dos dias de hoje

          juntarão os deuses supernos as horas de amanhã?

Das mãos ávidas do teu herdeiro se escaparão todos os bens

          com que o teu ânimo regalaste.


Uma vez morto e ao magnífico julgamento

          de Minos submetido,

nem linguagem, nem eloquência, nem piedade,

          te farão viver.


Das infernais trevas, nem Diana liberta

          Hipólito casto,

nem Teseu das cadeias do Letes consegue soltar

          o caro Pirítoo.

(Odes, IV.7)


 

Comentários

  1. Li a ode à Glória do poeta na tradução de M.H.Rocha Pereira que aqui apresenta. Esta tarde tinha lido a tradução da mesma ode de Vasco Graça Moura: que diferença! A tradução aqui apresentada parece muito mais fiel ao texto e muito mais compreensível.
    Apesar da longa distância temporal que me separa do tempo em que aprendi latim, consegui cotejar as duas versões. Obigado por este blogue.

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