Neologismos: solastalgia

O Latim e o Grego estão na base da língua portuguesa, mas também de outras línguas, mesmo as de origem não românica. E, quando é preciso criar palavras novas para designar novas realidades, é ao Grego e ao Latim que qualquer cientista (seja qual for a sua área de investigação) ou filósofo recorre de imediato.

Foi assim com o neologismo: solastalgia. Da sua origem nos fala a professora de filosofia belga Pascale Seys numa das suas crónicas semanais na Musiq3 - uma estação de rádio de Bruxelas, que pode ser ouvida aqui :

As primeiras palavras do Génesis contam o começo do universo simultaneamente ao nascimento da linguagem como para significar que os seres e as coisas, os nossos sentimentos e as nosas representações não adquirem uma existência e uma consistência reais senão quando se exprimem no campo da linguística. É o que afirmava o historiador das ideias Jean Starobinski  a propósito de um neologismo culto aparecido no século XVIII que tem a ver com uma languidez emotiva, um estado doentio cujos contornos foram definidos a partir da língua grega  e que acaba de reaparecer sob uma forma nova, tal como uma personagem de romance, para descrever um sentimento contemporâneo, ligado ao que se chama hoje, a eco-ansiedade.

Construída sobre uma associação de termos gregos, o desejo de voltar a casa  nostos e a dor de estar afastado dela algos, a nostalgia aparece pela primeira vez numa tese de medicina em 1688  para descrever um sentimento doloroso que se traduzirá por “Heimweh” em alemão e “Homesickness” em inglês a fim de descrever uma perturbação psicológica de consequências graves, que afecta os soldados e os migrantes no seu desejo de regressar à sua pátria. Um e outro sentem uma melancolia ligada ao lugar de origem , uma necessidade e uma falta do “chez soi (em sua casa)”, conhecido sob o termo de “mal du pays”, que conhecem também aqueles e aquelas que mudam de cidade e de paisagens, e aqueles e aquelas que mudam de casa. A nostalgia descreve pois o desejo de voltar a casa ou a si, ao seu país, de reencontrar os gostos da cozinha local  e a tranquilidade de dambular num território conhecido, privação dolorosa que nenhum medicamento permite tratar nem aliviar.

Desde Hesíodo, nos Trabalhos e Dias, depois em Virgílio e Ovídio que os seguem, os gregos dispunham eles também de uma palavra destinado a exprimir um sentimento de saudade  ou de melancolia ligado à recordação de um passado melhor, a que eles tinham chamado idade do ouro.  A idade do ouro, entendida como um tempo de inocência, de prosperidade e de felicidade. O tempo mítico da Idade do ouro era o de uma primavera eterna: as colheitas eram abundantes, os homens alimentavam-se de frutos e não matavam nem os animais, nem os outros homens, viviam sem conhecer a guerra, do mesmo modo que as portas das casas e das cidades não existiam porque o roubo e o instinto de propriedade não existiam. Mas eis que longe da idade do ouro, a nostalgia já não é o que era. Ecoando sempre, o canto melancólico dos nostálgicos do mundo de antes, como um neologismo fez a sua aparição  num registo destinado a traduzir ao presente  uma espécie de tristeza face ao desafio que o futuro representa.  A solastalgia é um conceito que foi criado sobre o modelo de nostalgia pelo filósofo australiano do ambiente Glenn Albrecht, que associou uma raiz latina “solacium” e um sufixo grego “algos” para descrever não tanto “o mal do país”  mas “um mal do país sem exílio”  como o definiu o filósofo da biodiversidade Baptiste Morizot. Face à mudança climática, face à desaparição das espécies e às feridas que o hipercapitalismo inflige ao ambiente, o nosso futuro parece sem “futuro” e a terra assemelha-se a um refúgio incerto. É isto a solastalgia: uma tristeza, um pesar, uma depressão “verde”, que é tida como um sintoma maior face ao sentimento de perda que a terra constitui, um abrigo e um recanto de mundo habitável para a harmonia dos seres vivos.  E eis como palavras e mitos  voltam   à nossa memória. A solastalgia lembra-nos que através  do grego e do latim que nós falamos sem o saber, é o mundo de antes que o passado nos dá a ver.


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