Os mitos Gregos e a actualidade — "o grego que todos falamos sem o saber"

Transcrevo, em tradução, mais uma crónica (que pode ser ouvida aqui ) da Professora belga Pascal Seys, na sua habitual rubrica na Rádio de Bruxelas Musiq3.

Sempre atenta à actualidade, mas nunca esquecendo o passado, Pascal Seys mostra-nos, mais uma vez, como as palavras dos gregos, os seus ideiais e os seus mitos perduraram ao longo dos séculos e têm reflexo nos nossos dias.

Hoje, a propósito da guerra a que assistimos com a invasão da Ucrânia, fala-nos de Ulisses e do cavalo de Tróia:

A astúcia consiste numa panóplia de estratagemas destinados a enganar ou a ganhar vantagem. Molière tinha o seu Scapin (personagem: lacaio brejeiro e intrigante), Lafontaine a sua raposa e Homero tinha içado Ulisses ao firmamento do heroísmo mediterrânico por causa do seu engenho. Além disso, o qualificativo grego para designar a inteligência de Ulisses é “polytropos”, quer dizer, ágil, hábil e engenhoso. Ulisses é “o homem das mil artimanhas”, manipula as armas, os seus gestos são precisos e a sua palavra inspiradora, convincente e mobilizadora. Está talvez aí a grande marca do seu génio. Ulisses é um conversador. Troça do Ciclope que engana dizendo chamar-se “Ninguém”, seduz uma feiticeira e galvaniza os seus companheiros, despertando neles a força e a coragem com palavras de circunstância.

É, contudo, contra vontade, depois de se ter feito passar por louco para não ter de abandonar o seu filho e a mulher, que Ulisses deixa Ítaca para se empenhar no combate no campo dos Aqueus em Tróia. Para vencer ele desenvolve uma ideia de génio, um ardil velho como o mundo que a linguagem informática chama Troiano para nomear um ataque surpresa, técnica que se ensina em particular nas academias militares na Rússia, cujo embuste operacional é designado pelo nome: maskirovka, quer dizer, a camuflagem pela desinformação. O regulamento de 1929 do Exército Vermelho constatava que “a surpresa exerce um efeito entorpecedor sobre o inimigo” daí que todos os meios são bons para inventar pretextos, argumentos, falsas promessas e artimanhas destinadas a enganar os seus inimigos.

É ainda verdade hoje.

No tempo da guerra de Tróia é uma maskirovka com cabeça de equídeo que Ulisses inventou para fazer triunfar o campo humilhado dos Gregos. Humilhado, sim, porque o motor desta guerra mitológica foi  o ciúme. O príncipe troiano Páris rapta a bela Helena, esposa do rei de Esparta, Menelau, e provoca em resposta à ofensa, uma expedição guerreira de várias armadas aliadas, com consequências funestas em cascata: a morte de Heitor, a cólera de Aquiles, o sacrifício de Ifigénia, e uma maskirovka de génio: o cavalo do Tróia. Recordem. A cidade de Tróia está cercada há dez anos pelos Gregos. Os combates continuam sem vitória e o resultado do conflito permanece incerto. É preciso pois encontrar uma solução, passando pelo “ardil”.

Epeu constrói um gigantesco cavalo de madeira ajaezado em ouro, que os Gregos deixam sob a forma de oferta aos Troianos diante das portas da cidade. É uma bomba ao retardador porque, no interior do animal, estão escondidos guerreiros, armados até aos dentes. Em seguida, os Gregos incendeiam o seu campo, fingem retirar as suas tropas e os seus navios, que dissimulam um pouco mais longe, ao largo da ilha de Ténedos. Mas a manobra é um ardil. Primeira maskirovka. Entretanto, os Troianos, protegidos atrás das muralhas da cidade, encontram-se sós numa cidade deserta e estranhamente silenciosa, face ao imenso cavalo que suscita ao mesmo tempo a sua desconfiança e excita a sua curiosidade. É então que aparece Laocoonte, literalmente “aquele que compreende o povo” e que exorta os Troianos a desfazerem-se do cavalo através de uma frase célebre referida em latim por Vergílio: “Quidquid id est, timeo Danaos et dona ferentes” – “o que quer que isto seja, temo os Gregos, mesmo trazendo presentes”.  O presente em questão, a pretensa prenda, cada vez menos recebida como tal, está envenenado, mas a armadilha funciona. Segunda maskirovka. Os Troianos abrem as portas da cidade para fazer entrar o cavalo mítico.

O desenlace do conflito está próximo. Durante a noite, uma armada de homens com pressa de resolver a guerra e voltar a suas casas, sai do ventre do animal e o combate desenrola-se no interior das muralhas de Tróia; acaba com a vitória dos Gregos. Não é ilegal, não é fazer batota, não é um crime, nem mesmo um delito. Isto chama-se um ardil de guerra, uma versão grega da maskirovka. E eis como, atravessando os tempos, as palavras e os mitos nos trazem à nossa memória. A guerra de Tróia lembra-nos que através do Grego, que falamos sem o saber, é o mundo futuro  que o passado nos dá a ver.


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