Flores e Mitos
Na mitologia toda a natureza tem uma história. É a origem das plantas, das flores, das árvores... é a explicação das estações do ano, são as cores, os ventos, o sol... a terra e os seus frutos.
Para tudo a mitologia grega tem uma explicação, com histórias de amor, de alegrias e tristezas, de risos e de lágrimas, de metamorfoses...
É a flor que imortaliza um ser amado, a flor que serve de disfarce a um deus enamorado, a flor sempre aliada à divindade e aos seus poderes, como acontece com a anémona (do grego ἄνεμος ‘vento’), relacionada com o mito de Adónis.

Diz-nos o mito que Adónis era filho de Mirra, a jovem filha de Tiante, rei da Síria a quem a ira de Afrodite (porque Tiante dizia que a sua filha era mais bela que a deusa) suscitou um amor incestuoso pelo próprio pai. Ao descobrir o ardil em que caiu, o rei, furioso, persegue-a para a matar, mas os deuses apiedaram-se da jovem e transformaram-na numa árvore, a árvore da mirra.
Diz o mito que a jovem chorou tanto com essa metamorfose que as suas lágrimas deram origem a uma resina, as gotas de mirra.
Meses depois nasceu Adónis, criança cuja beleza impressionou Afrodite que a recolheu e entregou a Perséfone, rainha dos Infernos, para que a criasse em segredo. Mais tarde, Perséfone, presa da beleza do jovem, não quis devolvê-lo a Afrodite o que gerou uma grande polémica entre elas. Esta história tem semelhanças com a do rapto da própria Perséfone, já que, também aqui, depois de um longo litígio, as duas deusas acordaram que Adónis passaria um terço do ano no mundo subterrâneo com Perséfone e dois terços junto de Afrodite.
É mais um mito ligado ao mistério da vegetação, pois o jovem, nascido de uma árvore, passa um terço do ano debaixo da terra e depois sobe ao mundo da luz, para junto da deusa da Primavera e do Amor.
A lenda conta também que, um dia, o jovem foi ferido mortalmente por um javali. O poeta Bíon, do século III a.C., escreveu um "Canto fúnebre em honra de Adónis". Aí refere que a deusa derramou tantas lágrimas quantas as gotas de sangue de Adónis e que, de cada lágrima, nascia uma rosa e, de cada gota de sangue de Adónis, nasceu uma anémona.
Tantas lágrimas verte a deusa de Pafos como sangue
verte Adónis. E tudo, ao cair no chão,
se transforma em flores: do sangue
nascem rosas; das lágrimas, anémonas.
(tradução de Albano Martins)
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Também Ovídio, poeta romano do século I a.C., assim descreve o mito:
E a demora não foi maior
que uma hora inteira, quando do sangue desponta uma flor,
com a cor que costumam oferecer as romãs que encerram
os seus grãos sob flexível pele. A sua vida, porém, é breve.
Pois, mal segura e fácil de cair pela excessiva leveza,
arrancam-na os mesmos ventos que lhe dão o nome.
( Metamorfoses, VIII, 734-739)
As anémonas, flores pequeninas e frágeis, florescem na Primavera e no Outono. Apresentam cores variadas, do roxo ao lilás, ao púrpura, ao azul e mesmo ao branco. Com mais de 60 espécies, o próprio nome científico faz alusão ao mito. Dos grupos principais de anémonas destacam-se: a Adonis vernalis, a Adonis aestivalis, a Adonis amurensis e a Adonis microcarpa.
Em honra de Adónis, instituiu Afrodite uma festa que era celebrada pelas mulheres da Síria na Primavera, com um ritual que lembrava a morte prematura do belo jovem: eram lançadas sementes em vasos e, de seguida, regadas com água quente para que germinassem mais rapidamente. Porém este violento tratamento fazia com que as plantas morressem pouco depois da sua germinação, simbolizando, deste modo, a curta vida de Adónis. Essas plantações denominavam-se “jardins de Adónis”.
O nosso Fernando Pessoa / Ricardo Reis, oferece-nos este belo poema em que refere o mito, os Jardins de Adónis, a rosa como símbolo da brevidade da vida:
As rosas amo dos jardins de Adónis,
Essas volucres amo, Lídia, rosas,
Que em o dia em que nascem,
Em esse dia morrem.
A luz para elas é eterna, porque
Nascem nascido já o sol, e acabam
Antes que Apolo deixe
O seu curso visível.
Assim façamos nossa vida um dia,
Inscientes, Lídia, voluntariamente
Que há noite antes e após
O pouco que duramos.

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