Narcisismo

Em entrevista à revista LER (nº 176 - Outono/Inverno 2025/2026), o filósofo francês Gilles Lipovetsky, a propósito do seu novo livro onde fala "sobre o papel da educação no recrudescer da inteligência artificial", é confrontado com esta questão que lhe foi posta:

"Cita Philippe Breton que prevê uma sociedade fortemente comunicativa, mas pouco interativa, e evoca a tragédia da proximidade. No seu entender, que figura literária ou mitológica melhor personifica essa solidão paradoxal deste ser hiperconectado?"

Resposta:

"Poderíamos dizer que Narciso, porque Narciso, na mitologia grega, é autossuficiente, contempla-se a si mesmo. Narciso, no mito, não precisa dos outros, é autossuficiente, mas sobre o mito grego ele diz: "Eis que esse é o perigo, quando nos bastamos a nós mesmos, de certa forma, caímos no pecado da arrogância, do orgulho, e isso acaba mal." Um narciso morre. O amor excessivo por si mesmo não é pecado no mundo grego, mas é um caminho perigoso e o homem irá pagar caro por isso. Mas na ideia de muita comunicação, mas pouco encontro, não é uma imagem otimista; é uma visão crítica. Narciso também é crítico de certa forma. ... A tragédia da proximidade passa pela ideia de que não precisamos de estar tanto tempo juntos, a conversar, a ver-nos, porque podemos enviar mensagens. Acho que isso é falso. Mas é essa a ideia."

Nesta sociedade da comunicação à distância, das redes sociais, das curtas mensagens escritas, vemos o ser humano cada vez mais só, mais isolado. É essa a realidade, estar "conectado" não nos torna mais próximos e acompanhados, faz de nós seres mais isolados, sem uma verdadeira comunicação.

Narciso é bem o exemplo do mundo de hoje, do mundo que se apresenta nas redes sociais, em que as pessoas estão sempre no seu melhor, sempre num clima de verdadeira felicidade, sempre jovens, belas e felizes. É o culto do eu que os "influenciadores" propõem, a auto-estima desmedida, cada um a julgar-se "o melhor"... Narcisismo...

Narciso era, na mitologia grega, um jovem muito belo, filho de Cefiso, deus dos lagos, que residia no rio Kifisos, na Beócia e da ninfa Liríope, segundo a versão do poeta Ovídio, nas Metamorfoses. Pelo lado paterno, Narciso seria neto do deus primordial Oceano e da titânide Tétis. Tinha uma irmã chamada Diogenia.

Quando Narciso nasceu, os pais consultaram o adivinho Tirésias que lhes disse que o menino "viveria até ser velho, se não olhasse para si mesmo."

O jovem Narciso despertava grandes paixões em todas as jovens e ninfas que ficavam seduzidas pela sua beleza. Ele, porém, insensível, de todas se afastava, a todas desprezava. As jovens desprezadas pediram ajuda aos deuses e Némesis compadeceu-se delas e resolveu castigar a arrogância de Narciso que se julgava superior a tudo e a todos, contente consigo mesmo. 

Némesis é a personificação da vingança, é ela que vem castigar os mortais pela sua "desmesura". Narciso tem de ser castigado por "subverter a ordem do mundo" com a sua arrogância.

Então, quando, num dia de calor intenso, ele se debruçou sobre uma fonte para matar a sede, viu reflectido na água o seu rosto. Ficou de tal modo encantado com a beleza que viu no espelho da água que ali ficou a contemplar-se, extasiado, apaixonado. Não mais saiu daquela posição e assim se deixou morrer.

 Esse foi o castigo da sua vaidade, da sua hybris.

No local onde Narciso morreu a deusa Afrodite fez nascer uma flor à qual foi dado o seu nome — narciso

 

 

Narciso, de Peter Paul Rubens (1577-1640)

 

 Pausânias, autor do séc. II d.C., na sua Descrição da Grécia, conta-nos a mesma história com algumas diferenças:

Bem no cimo do monte Hélicon existe um rio pequeno chamado Lamo. Em território téspio há um lugar chamado Dónacon (Canavial). Aí fica a fonte de Narciso, em cuja água se diz que Narciso se mirava e, por não perceber que se tratava da sua própria imagem, sem se dar conta apaixonou-se por si mesmo; devido a esse amor, acabou morrendo junto à fonte. Esta é uma história que me parece a todos os títulos absurda, que um adulto estivesse tão possuído pelo amor a ponto de não distinguir um homem da imagem de um homem.  Há também uma outra história a respeito de Narciso menos conhecida do que a anterior, mas mesmo assim corrente, em que se diz que ele tinha uma irmã gémea, e que eram em geral muito parecidos, no cabelo, nas vestes que ambos usavam, e que caçavam juntos. Narciso apaixonou-se pela irmã e, quando ela morreu, ele passou a ir à fonte; e, mesmo sabendo que era a sua própria imagem o que via, apesar disso encontrava alguma consolação para o seu amor por pensar que não era a própria imagem que via, mas a da irmã. A flor do narciso, a terra já antes a produzia, julgo eu, a ter em conta o testemunho dos versos de Panfo. Este, nascido muitos anos antes de Narciso de Téspias, diz que já Perséfone, a filha de Deméter, foi raptada quando se entretinha a apanhar flores; e para consumar o rapto foi enganada não com violetas, mas com narcisos.

Pausânias,  Descrição da Grécia, 9, 31.7 (Trad. de Maria de Fátima Silva, imprensa da Universidade)

 A poesia recorda o mito:

— Em Sampa, de 1978, Caetano Veloso canta assim:

Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto
É que Narciso acha feio o que não é espelho
E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho
Nada do que não era antes quando não somos Mutantes

— E assim o interpreta também Miguel Torga:

O Narciso

O desenho impreciso
De cada rosto humano, reflectido!
Mas, o velho Narciso
Continua fiel e debruçado
Sobre o ribeiro…
Porque há-de ver-se inteiro
Quem todo se deseja revelado?

Devorador da vida lhe chamaram,
A ele, artista, sábio e pensador,
Que denodadamente se procura!

À movediça e trágica tortura
De velar dia e noite a líquida corrente
Que dilui a verdade,
Quiseram-lhe juntar a permanente
Ironia
Desse labéu de pérfida maldade
Que turva mais ainda a imagem fugidia… 

Miguel Torga, Cântico do homem, Coimbra, 1950.

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