Antes lacónico que fala-barato
Na sequência do texto anterior sobre as Máximas de Delfos.
Usamos, em português, expressões do tipo "foi muito lacónico", "um discurso muito lacónico", quando queremos dizer que a pessoa falou de forma muito concisa, breve, disse tudo em poucas palavras.
Temos, portanto, o substantivo "laconismo" e o adjectivo "lacónico".
Qual a origem destes vocábulos?
Do grego λακωνισμός significa "imitação dos costumes dos lacedemónios"
Λακεδαίμων designa a Lacedemónia, a Lacónia, ou a sua capital, a cidade de Esparta.
A Lacónia era o nome que os Romanos davam a Esparta, cidade grega, situada no Peloponeso, que os gregos antigos designavam por Lacedemónia. Assim eram chamados em Homero os guerreiros que acompanhavam Menelau na expedição a Tróia, os Lacedemónios. Lacedemónia designava tanto essa região, o Peloponeso, como a sua capital, Esparta.
Ora, os Lacedemónios eram conhecidos por serem homens de poucas palavras, homens habituados ao silêncio e, por isso, muito concisos nos seus discursos.
Por isso, Platão nos diz que os grandes sábios os admiravam e seguiam esses preceitos — o laconismo era propício à expressão de um pensamento claro, revelava uma boa educação.
“Muitos entenderam, hoje como outrora, que ser como os Lacónios consistia muito mais em interessar-se pela filosofia do que pela ginástica, sabendo que ser capaz de proferir tais palavras é próprio de um homem perfeitamente educado. Entre esses contavam Tales de Mileto, Pítaco de Mitilene, Bias de Priene, o nosso Sólon, Cleobulo de Lindos, Míson de Queneia e, mais ainda um séptimo, Quílon de Lacedemónia. Estes eram todos émulos, admiradores e discípulos da educação lacedemónia. E bem se pode compreender que a sua sabedoria era dessa qualidade, pelas palavras concisas e memoráveis que cada um proferiu. Foram eles que, numa reunião no templo de Delfos, dedicaram a Apolo as primícias da sua sabedoria, inscrevendo aquelas sentenças que toda a gente celebra “Conhece-te a ti mesmo” e “Nada em excesso”.
Porque é que digo isto? Porque era este o carácter da antiga filosofia, uma espécie de concisão lacónica.
(Platão, Protágoras, 342 e 343 — in M.H.da Rocha Pereira, Hélade – Antologia da Cultura Grega)
E Plutarco, quando quer condenar a loquacidade, mostrar que falar muito não é sinal de sabedoria, elogia os métodos de educação de Licurgo, o lendário legislador a quem se atribuem os preceitos sobre a educação dos jovens espartanos, e diz que devemos:
"... ter sempre no nosso espírito os elogios feitos à discrição. É preciso compreender o quanto há de gravidade, de sagrado e de religioso no silêncio.
Foi obrigando os Lacedemónios, desde tenra idade, ao silêncio que Licurgo lhes garantiu uma tão grande superioridade, porque fez deles homens concisos e enérgicos.
Esta linguagem sentenciosa que é característica dos Lacedemónios, esta feição viva e rápida que davam às respostas no momento exacto, era o resultado de um longo hábito de silêncio.
E cita, como exemplo, dessa concisão as Máximas de Delfos:
"No frontespício do templo de Apolo Pítio não foi nem a Ilíada, nem a Odisseia, nem os hinos de Píndaro que aí gravaram, mas "Conhece-te a ti mesmo", "Nada em excesso"...
Acrescenta que, para exemplificar esta característica dos Lacedemónios, se contava a propósito das ameaças de Filipe da Macedónia:
"Certa vez, tendo-lhes escrito Filipe: "Se eu entro na Lacónia, vou destruir-vos", eles responderam: "Se."
Plutarco, Obras Morais, Sobre a Loquacidade, 17.
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ResponderEliminar". Não estará tudo isto ligado?
ResponderEliminarParece-me bem que sim. É o estoicismo..."Se és capaz de manter tua calma, quando,
Eliminartodo mundo ao redor já a perdeu e te culpa"; é Sisifo, que recomeça "E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,/resignado, tornar ao ponto de partida."; é o falar pouco, mas dizer o essencial, o mais importante; é o silêncio... que vale mais que mil palavras... etc.
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ResponderEliminarLido o texto que a A.do blog escreveu sobre "lacónico" e " laconismo", numa teia de relações que eu fui desenrolando, deparei-me com um fio que foi dar ao célebre poema If, de Rudyard Kipling, escrito em 1895, poema de que alguns comentadores dizem : " o estilo é típico do estoicismo vitoriano". Não estará tudo isto ligado ?
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