ARACNE e aracnídeos
Na sequência do Dia Internacional dos Museus
Vamos ao Museu do Prado, em Madrid: observemos um dos mais famosos quadros de Velásquez, conhecido como "As Fiandeiras"
Neste quadro retrata-se o Mito de ARACNE.
Uma história que valoriza a Arte, uma história de talentos.
Mas também uma história de orgulho e vaidade desmedida...
Uma história que fala das relações entre deuses e humanos, de hybris, de atrevimento e ousadia; de vingança dos deuses sobre os mortais que se atrevem a desafiá-los.
Uma história de metamorfoses, de explicação da vida e da natureza.
Aracne era talentosa, mas também vaidosa e atrevida; não tinha consciência dos seus limites.
Aracne era uma jovem da Lídia, na Anatólia (actual Turquia). Era conhecida em toda a parte pela sua arte no tear. Criava tapeçarias de tal beleza que as próprias ninfas vinham contemplá-las. Por isso se dizia que ela tivera como mestra a própria deusa Atena, a deusa das fiandeiras.
Mas a jovem, orgulhosa, dizia que tudo se devia a si mesma e ao seu talento. Ousou mesmo desafiar a deusa para uma competição.
Tentando chamá-la à razão, Atena apareceu a Aracne disfarçada de velha. Deu-lhe conselhos, disse-lhe que não desafiasse a cólera da deusa. Mas a jovem não desistiu e respondeu de forma insolente.
Então Atena aceitou o desafio e ambas começaram a tecer uma tapeçaria para ver qual seria a mais artística.
Atena representou os deuses do Olimpo em todo o seu esplendor, e também exemplos dos seus castigos sobre os humanos que ousavam desafiá-los.
Aracne representou os amores de Zeus por mortais, os seus disfarces e traições, acções que em nada valorizam os poderes divinos.
O trabalho de Aracne
era uma obra de arte perfeita.
Atena ficou furiosa, enraivecida pelo talento da jovem: rasgou-lhe a tapeçaria e atacou-a com a lançadeira. Aracne, desesperada, enforcou-se. A deusa, porém, compadeceu-se da pobre mortal e não a deixou morrer.
No entanto, para tal ousadia não ficar impune, transformou-a em aranha (em grego: ἀράχνη, ἀράχνης : aranha).
E assim Aracne continua a tecer, eternamente, a sua teia.
O orgulho é castigado, a queda é grande: de jovem artista, famosa tecedeira para insignificante aranha.
Diz-nos Ovídio que:
Aracne não era famosa pela terra nativa
nem pela origem da família, mas sim pela arte.
Metamorfoses, VI, 7-8.
Mais adiante, assim descreve o poeta a fúria da deusa:
A loira deusa guerreira ficou furiosa com tal sucesso.
rasgou a colorida tela com as malfeitorias dos seres celestes,
e, com a lançadeira de madeira do Citoro que na mão tinha,
três, quatro vezes bateu na testa de Aracne, filha de Ídmon.
A pobrezinha não o suportou e, por orgulho, atou ao pescoço
um laço. Ao vê-la pendurada, Palas condoeu-se e ergueu-a
dizendo: “Vive então, malvada, mas sempre pendurada.
E para não ficares sem cuidados futuros, que a mesma pena
seja declarada à tua estirpe e aos mais remotos descendentes.”
Metamorfoses,VI, 130-138.
Observemos mais atentamente a representação de Velásquez — ali se conta, em quadros sucessivos, toda a história mitológica:
No primeiro plano: uma sala com mulheres preparando a lã para o tear
duas cenas: do lado direito, uma mulher de costas, dobando a lã; do lado esquerdo, a mesma mulher conversando com outra mais idosa
Ao fundo, em 2º plano: uma tapeçaria com figuras mitológicas e outras figuras femininas a observá-la, parecendo integradas na própria tapeçaria.
No primeiro plano:A mulher de blusa branca, de costas, à direita, é ARACNE, a famosa tecedeira; à esquerda, uma mulher velha, mas com uma perna jovem a descoberto — é a deusa ATENA, disfarçada de velha; Aracne, num plano superior, conversa com a idosa;
No segundo plano, ao fundo: dependurada na parede, uma tapeçaria; é o trabalho de Aracne.
Vemos ATENA, com o capacete de guerreira, com a mão levantada, ameaçando ARACNE à sua frente; três mulheres observam a cena.
Uma outra interessante representação do Mito é a de Peter Paul Rubens, que se encontra no Museu de Belas Artes da Virgínia:
Aqui se representa Aracne (à esquerda) debruçada sobre o tear, a trabalhar na sua teia; Atena observa-a; esta mesma figura de Atena, aparece, depois, do lado direito com uma cabeça de guerreira, usando o capacete: empurra Aracne e levanta um braço com a lançadeira pronta a atacar a jovem caída no chão; dependurada ao lado a tapeçaria de Aracne onde se vê a representação do Rapto de Europa por Zeus.
Etimologias:
E, se a palavra portuguesa "aranha" vem do latim "aranea", na classificação científica, aranha pertence à classe dos aracnídeos.


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