As ... são como as cerejas...
Estamos no tempo das cerejas. E quem não gosta de cerejas?! nunca se come só uma... até porque elas vêm umas atrás das outras, é difícil separá-las, e difícil parar de as comer...
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Quando pegamos numa conversa, umas palavras puxam outras e passamos de um assunto a outro que com ele se interliga, quase sem dar por isso.
É o que acontece com as histórias da mitologia grega.
Falámos de Europa, a princesa fenícia que deu nome ao continente. Europa foi raptada por Zeus. Então, e a família não fez nada? O pai não procurou a filha? Ficou quieto? Parece que não. Agenor tentou encontrar a filha desaparecida. Mas os deuses não permitirem que a sua busca tivesse êxito.
O que nos dizem os mitógrafos?
O pai de Europa, Agenor, tinha saído do Egipto para se fixar na Síria. Foi o rei de Tiro [importante cidade fenícia - situada no Líbano actual]. Aí casou com Telefaassa e com ela teve três filhos e uma filha: Cadmo, Fénix, Cílice e Europa.
Quando Europa foi raptada por Zeus, Agenor ordenou aos filhos que fossem procurar a irmã e não regressassem a casa sem a ter encontrado. Os três filhos partiram em diferentes direcções e, como não encontraram a irmã, nenhum regressou à sua terra, acabando por fixar-se noutras regiões onde fundaram cidades.
O percurso de Cadmo:
Cadmo, que levou consigo a mãe Telefaassa, entrou no mar Egeu, passou por Creta, Tera e foi dar à Trácia. Aconselhado a consultar o oráculo, partiu em direcção a Delfos. O oráculo disse-lhe que continuasse o seu caminho e quando encontrasse uma vaca diferente das outras e que não suportasse o jugo, a seguisse e parasse no local onde o animal caísse morto. Cadmo assim fez.
O animal conduziu-o até à Beócia onde caiu de exaustão. Nesse lugar Cadmo fundou a cidade de Tebas. Tendo enviado os seus companheiros em busca de água para o sacrifício aos deuses, estes foram dar a uma fonte, situada no bosque de Ares, guardada por um dragão que atacou e despedaçou todos os homens. Quando Cadmo viu os companheiros mortos, atacou o dragão e matou-o. Depois, aconselhado por Atena, fez um sulco na terra e aí semeou os dentes do dragão.
Da terra brotaram homens armados e, tendo Cadmo lançado contra eles uma pedra, imediatamente eles começaram a lutar matando-se uns aos outros, tendo sobrevivido apenas cinco, que foram chamados “espartos”, que quer dizer “semeados”, e que ajudaram Cadmo na fundação de Tebas.
Este episódio é recordado por Camões, quando, louvando os portugueses: "Vós, que, à custa de vossas várias mortes, /A Lei da vida eterna dilatais", critica outros povos europeus que não se unem na luta pela cristandade, sendo inimigos entre si:
Ó miseros Cristãos, pola ventura,
Sois os dentes, de Cadmo desparzidos,
Que uns aos outros se dão à morte dura,
Sendo todos de um ventre produzidos?
Camões, Os Lusíadas, VII, 9
Em Tebas Cadmo terá introduzido as letras da sua terra natal, a Fenícia.
Desse alfabeto fenício proveio um primitivo alfabeto grego que acabou por se subdividir em dois grandes ramos que se espalharam pelo mundo grego: o ramo oriental e o ramo ocidental.
Foi de um alfabeto ocidental (possivelmente o que era utilizado por colonos gregos vindo de Cálcis, capital da ilha de Eubeia, e que se estabeleceram em Cumas, na Itália, perto de Nápoles) que proveio o alfabeto etrusco de onde saiu, mais tarde, o alfabeto latino.
E assim, da história do Rapto de Europa e do nome do continente, chegamos à origem do nosso alfabeto.

"A conversa é como as cerejas" e a mitologia nem se fala: umas histórias puxam outras e com elas vamos desvendando o nosso passado e compreendendo melhor o nosso presente. Bem-haja quem a esta missão se entrega!
ResponderEliminarEste comentário foi removido pelo autor.
ResponderEliminarpalavras são como as cerejas e somente quem as sabe usar bem encanta o seu leitor. Muito obrigada pelas suas palavras e pelas lições que delas emergem!
ResponderEliminarE estas cerejas são mesmo uma tentação para espíritos curiosos! Obrigado.
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