DIA DA EUROPA

 Ontem, 9 de Maio, festejou-se o Dia da Europa.

EUROPA — uma história de séculos ... de milénios... que nos leva a mais um mito, uma narrativa do Olimpo e dos deuses, de amores divinos e humanos, de paixões e de raptos...

Zeus, o soberano do Olimpo, rei dos deuses e dos homens, senhor de muitas aventuras amorosas, caprichoso na teimosia de alcançar o que desejava...

Dizem os mitógrafos que Europa era uma jovem princesa muito bela, filha do rei da Líbia, por quem Zeus se apaixonou. Usando das suas artimanhas e força divinas, o rei dos deuses, transforma-se num lindo touro branco, aproxima-se da jovem, rapta-a e leva-a para Creta onde ela será mãe de três filhos seus: Minos, Sarpédon e Radamante. Depois, casou-a com Astérion, rei de Creta, que adoptou os filhos de Europa e de Júpiter.

Acrescentam que o seu nome está na origem do nome de um continente.

O mito aparece em muitos poetas e contado com pormenores variados.


O poeta alexandrino do século II, Mosco, dedica ao mito um longo poema. Diz-nos que a princesa Europa teve um sonho muito perturbador e intrigante. Sonhou que dois continentes, ambos com forma de mulher, a disputavam e afirmavam ter direitos sobre ela. Um deles, a Ásia, dizia que ela era sua filha, mas o outro continente, ainda sem nome, afirmava que ela lhe tinha sido dada por Zeus. Ao acordar, a princesa, para esquecer aquela visão estranha, decidiu chamar as amigas e ir dar um passeio pelos bosques junto ao mar. Enquanto corriam e apanhavam flores, descuidadamente, correndo pela praia, um lindo touro branco, saindo das marítimas águas, aproximou-se, ajoelhou perante ela e, suavemente, deixou-se acariciar. Sem suspeitar do engano, a jovem sobe-lhe para o dorso e eis que o touro se precipita nas águas e a leva consigo, mar fora, para longe da sua terra natal. A viagem terminou em Creta.

 

Também o poeta Ovídio (século I a.C.), na sua obra “Metamorfoses”, conta, detalhadamente, a história do rapto de Europa pelo rei dos deuses. Descreve o touro e a forma como lhe apareceu e a raptou:

                 A filha de Agenor olha maravilhada,

pois ele é tão belo, ele nada tem de ameaçador ou agressivo.

Mas embora tão dócil, a princípio tem receio de lhe tocar;

depois, aproxima-se e estende flores para a alva boca.

O apaixonado fica feliz, e até chegar o ansiado prazer

beija-lhe as mãos.      ........

                                                 A princesa aventura-se até

a sentar-se no dorso do touro, sem saber a quem ela montava.

Então, o deus afasta-se lentamente da terra e da areia seca,

e começa a pisar com os falsos cascos a borda das ondas.

Depois , avança ainda mais e leva a sua presa pelas águas

no meio do mar.

Ovídio, Metamorfoses, II, 858-873 (trad. de Paulo Farmhouse Alberto).

 

O Rapto de Europa — mosaico romano (séc.III d.C.) — Museu Nacional de Beirute (Líbano)

Há também autores que referem versões diferentes, sem darem a lenda como certa. Paulo Festo, escritor do século VIII, resume assim as lendas que corriam:

Tem-se como certo que se chama Europa à terceira parte do mundo a partir de Europa, filha de Agenor. Mas uns falam do amor de Júpiter transformado em touro; outros são de opinião que ela foi raptada por ladrões... alguns , porém, dizem que, por causa da beleza daquela região, aquela terra foi ocupada por Agenor e pelos Fenícios mediante a simulação do rapto da filha.


É, em todo o caso, o encontro do Oriente e do Ocidente, uma história de amor e de beleza, história propícia à poesia e a todas as outras artes.

O mito inspirou artistas de todos os tempos, é talvez o mais reproduzido na pintura ou na escultura. Continua a dar mote a escritores contemporâneos, na poesia ou na prosa.

E o continente europeu vive também deste mito, quando, em mapas do Renascimento, por exemplo, a Europa é representada como uma figura feminina. Quando Camões diz:

 

Eis aqui se descobre a nobre Espanha,
Como cabeça ali de Europa toda, ...


ou Fernando Pessoa escreve:

A Europa jaz, posta nos cotovelos:

De Oriente a Ocidente jaz, fitando,

E todam-se os românticos cabelos

Olhos gregos, lembrando.

 ...

E na moeda europeia o mito também está presente. 

    
Se atentarmos no canto direito da nota, veremos uma imagem que é a reprodução da figura que representa o Rapto de Europa num vaso grego que podemos visitar no Museu do Louvre:
 

Cráter (vaso grego para misturar vinho e água)  representando o rapto de Europa – séc. IV a.C. — Museu do Louvre

O pormenor:


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