Divagações
O MAR ! θάλασσα !
Mare oceanus... Atlanticus Oceanus
Ὠκεανός, Oceanus, o Oceano é, na mitologia grega, o mais velho dos Titãs, fιlho de Urano (Céu) e de Gaia (Terra); é, em Homero, "a massa líquida que corre como um rio à volta da terra"; passou, mais tarde, a referir-se, especialmente, ao Oceano Atlântico (o mar exterior, por oposição a outros mares).
Atlântico — em latim: Atlanticus Oceanus
O nome vem de Atlas Ἄτλας, Ἄτλαντος
Quem era este Atlas?
— Atlas era filho do titã Jápeto e da Oceânide Clímene, ou de Ásia, uma filha do Oceano e de Tétis; era, portanto, irmão de Prometeu, entre outros.Tendo participado na luta dos Titãs contra Zeus, foi por este obrigado, como castigo, a sustentar nos ombros a abóbada celeste. A sua morada é, geralmente, situada no extremo Ocidente, no país das Hespérides, ou nos Hiperbóreos.
Diz-se que foi salvo deste castigo por Héracles/Hércules que por ali passou em busca do Jardim das Hespérides para cumprir um dos seus "trabalhos". Hércules tinha de passar por um estreito, então, decidiu abrir uma passagem mais larga ligando o Mediterrâneo ao oceano Atlântico, deixando de um lado um enorme rochedo e do outro um monte — a essas duas elevações se deu o nome de Colunas de Hércules (o estreito de Gibraltar).
Atlas vigiava as Colunas de Hércules, que eram a passagem para a morada oceânica de Atlântida;
— Em Heródoto, Atlas é o nome de uma montanha situada no Norte de África — daí o nome da cordilheira de montanhas do Norte de África — Cordilheira de Atlas (que se estende através de Marrocos, Argélia e Tunísia (por 2 400 km).
— Atlas é também o nome daquele que terá sido o primeiro rei da Atlântida e, por ser o senhor das águas distantes (as que ficam para lá do Mediterrâneo), deu o nome ao Oceano Atlântico.
Ἀτλαντικός: de Atlas; Ἀτλαντικὴ θάλασσα: o mar Atlântico
— Posídon (Neptuno, para os Romanos) era o deus dos mares. Filho de Crono e de Reia, irmão de Zeus. Quando este, após ter destronado o pai, se assumiu como senhor do Olimpo, dividiu os poderes, dando ao irmão Posídon o governo dos mares e a Hades o reino dos Infernos, deixando para si próprio o domínio do Céu e da Terra.
O mar era muito importante para os antigos gregos, um país rodeado de mar e de ilhas. O meio de transporte mais usual e natural era, portanto, o barco. Junto ao mar, os Gregos dirigiam-se para qualquer parte e sabiam sempre orientar-se.
Xenofonte, historiador do séc. V-IV a.C. conta-nos uma história imortal passada durante a Retirada dos Dez Mil, os soldados mercenários gregos que tinham sido contratados por Ciro para o ajudarem a destronar o seu irmão. No regresso a casa, uma caminhada de cerca de três meses, estes gregos, entre os quais se encontrava o próprio Xenofonte que narrou a história, sobreviveram, ordenadamente.
É Xenofonte que descreve na Anábase (ἀνάβασις: expedição ao interior; do verbo ἀναβαίνω “marchar, caminhar, subir”. Nos
livros II-IV narra essa Retirada dos Dez
Mil — a catábase (κατάβασις : descida; a caminhada do
interior até ao mar.
A determinada altura os soldados que iam atrás ouviam os da frente a gritar, com grandes gestos que eles à distância não entendiam.
“Os gritos aumentavam de intensidade à medida que mais soldados chegavam ao pino do monte. E, chamados por aqueles, outros deitavam para lá a correr, em bandos,
singularmente, e mais a assuada
recrudesceu. Xenofonte teve de admitir que alguma coisa de extraordinário se passava; montou a cavalo e,
fazendo sinal a Lício, lançou-se, seguido do seu esquadrão de ginetes, oiteiro acima, à
rédea solta. Não tardou que percebesse
as vozes: o mar! o
mar! (θάλαττα!
θάλαττα!) ao passo que os soldados
se abraçavam uns aos outros, ébrios
de alegria. Então o
resto do exército, infantaria, cavaleiros, trem,
deitou a correr em peso para o pino do monte. E à vista do
mar sem fim, foi um delírio.
Os soldados pulavam,
cantavam, punham-se a chorar como crianças. Beijavam
os capitães e oficiais, e a exultação
não tinha limites. De repente, sem que ninguém desse ordem, cada
qual correu a buscar pedras; com elas elevaram um montículo, sobre que depuseram, em guisa de oferenda
aos Deuses, ....” (Tradução de Aquilino Ribeiro)
O mar era a segurança, o caminho, agora sabiam que estariam a chegar a casa.
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O mar jaz; gemem em segredo os ventos
Em Éolo cativos;
Só com as pontas do tridente as vastas
Águas franze Neptuno;
E a praia é alva e cheia de pequenos
Brilhos sob o sol claro.
Inutilmente parecemos grandes.
Nada, no alheio mundo,
Nossa vista grandeza reconhece
Ou com razão nos serve.
Se aqui de um manso mar meu fundo indício
Três ondas o apagam,
Que me fará o mar que na atra praia
Ecoa de Saturno?
Fernando Pessoa - Ricardo Reis, Odes
De novo o som o ressoar o mar
De novo o embalo do tumulto mais antigo
E a inteireza de instante primitivo
De novo o canto o murmurar o mar
Que se repete intacto e sacral
De novo o limpo e nu clamor primordial
Sophia de Mello Breyner Andresen
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