Em busca da Nefelocoquígia
Criatividade é o que se exige a quem "tem de escrever" e publicar, todos os dias, uma pequena crónica, sem tema definido.
É isso que acontece com Miguel Esteves Cardoso que todos os dias escreve no jornal Público um pequeno texto para o qual ele encontra sempre um tema interessante (com certeza uns mais interessantes que outros, mas variados).
Criatividade linguística é o que acompanha o texto de hoje, dia 4 de Maio de 2026, e que aqui se transcreve integralmente:
Nefelocoquígia, nubicuculia?
Público - Edição Lisboa
Miguel Esteves Cardoso
04 maio 2026
Perdendo a cabeça à procura do exemplar das Aves de Aristófanes traduzidas por Maria de Fátima Sousa e Silva, lembrei-me de uma moda minha de 2025. Farto de perder o rasto aos apontamentos que faço nos livros, desatei a fotografar as páginas que abençoei com os meus comentários, enviando-as todas para o meu mail, com um título fácil de encontrar.
Ainda durou um mês essa moda, até eu perceber que tinha maneiras mais proveitosas e agradáveis de passar o tempo que eu estava a perder com a transmissão eterna dos meus reparos: por exemplo, a ler e a fazer apontamentos.
À cidade que as aves constroem entre a terra e o céu, entre os atenienses e os deuses, Aristófanes chamou Nephelokokkygia: a Nuvemlândia dos cucos, o mundo perfeito mas inalcançável que os cucos construíram nas nuvens.
Muito antes de ter ouvido falar de Aristófanes, foi da boca da minha mãe, Diana, que ouvi a versão inglesa da Nefelocoquígia: Cloud Cuckoo Land.
Sempre que eu queria uma coisa impossível, ou apostava nalgum milagre — o que qualquer criança faz vinte vezes por dia —, ela dizia que eu vivia em Cloudcuckooland, tudo junto para exprimir melhor a irritação dela.
Para o meu pai, Joaquim, eu era um nefelibata, um flâneur das nuvens, que vivia noutro mundo, destinado à desilusão, cada vez que era obrigado a descer à terra.
Então porque é que levei tantas décadas a descobrir que o nome verdadeiro dessa terra, se tivermos mesmo de passar tudo para os nossos caracteres, é Nefelocoquígia?
Porque vivo nas nuvens? Porque também me saí cá um cuco? Porque perdi o único livro que me podia explicar como é que se deve ler e escrever essa palavra em português?
Também gosto da versão latina, que é Nubicuculia. E porque não Nubicucúlia? O acento dá uma ênfase merecida ao pobre cuco, que, de resto, é mais esperto e abusador do que propriamente idealista. E Cucunubilândia?
Ou, para fazer contraste, Nubicucoterra, com restauração do “O” de cuco?
As nuvens que digam.
Vamos, então, ao grego, ao português e à tradução de Maria de Fátima Silva que Miguel Esteves Cardoso diz não ter encontrado.
O Argumento da comédia de Aristófanes As Aves, como se lê na tradução da especialista em teatro grego, Maria de Fátima Silva, começa assim:
"Dois velhos Atenienses, Pistetero e Evélpides, para escaparem às delações reinantes em Atenas, decidem emigrar. Compram um gaio e uma gralha e partem ao encontro das aves, decididos a permanecerem entre elas. Estas, a princípio, recusam-se a coabitar com os homens, seus inimigos de sempre. Mas, depois de conhecerem as vantagens que daí lhes podem advir, concordam em acolhê-los. Fundam uma cidade nos céus, a que dão o nome de Nefelocucolândia"... (pág. 35)
Quando as personagens Evélpides e Pistetero discutem a fundação da cidade, lemos (816-820):
Pistetero: Bom, que nome lhe havemos de dar?
Evélpides: Pode-se arranjar, inspirado nas nuvens e no espaço celeste, um nome bem pomposo.
Pistetero: Nefelocucolândia! Que tal?
Coro: Ena pá! Que belo nome, esse que inventaste! Imponente!
(Aristófanes, As Aves, edições 70,1989 - trad. de Maria de Fátima Sousa e Silva)
Nefelocucolândia — tradução do grego: Νεφελοκοκκυγία
Eis a formação da palavra:
- se eles andavam nas nuvens ... nuvem em grego : νεφέλη
- juntaram-lhe o nome de uma ave, o cuco — em grego κόκκυξ, κόκκυγος
- termina com o sufixo de formação de topónimos : -για (de γῆ: terra) e temos a transcrição do MEC: Nefelocoquígia
É assim a formação de palavras, a partir do grego ou a partir do latim. Daí o título do texto: Nefelocoquígia, Nubicuculia
Fixemos, então, os vocábulos:
— em grego — nuvem: νεφέλη — daí o nefelibata: o que anda nas nuvens
— em latim — nuvem: nubes — daí o nubívago: o que vagueia pelas nuvens, o mesmo que nefelibata
— em grego — cuco : κόκκυξ, κόκκυγος
— em latim — cuco : cucullus
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