LITERACIA

Literacia — vocábulo que está na moda nos últimos tempos...

Ouve-se falar tanto de literacia, de tantas literacias... 

Então falemos da primeira, da base, da literal...

Literacia tem a ver com o latim littera, que significa "letra", a letra do alfabeto; por isso "aprender as letras" significa "aprender a ler"; mas, no plural, litterae, tanto pode significar "carta" como a "literatura", a "cultura" e as "belas-letras".

Contudo, a literacia de que mais se fala actualmente é a financeira... 

É certo que todos precisamos de ter o nosso pecúlio... 

Na antiga Roma até os escravos tinham o seu peculium, algo de seu, umas tantas cabeças de gado que o senhor dava ao escravo que guardava o seu rebanho. Esse peculium permitia-lhe até comprar a sua liberdade.

Na base da palavra está pecus, pecoris: gado, rebanho e pecus, pecudis: cabeça de gado (mais aplicado ao gado miúdo, cabras, carneiros);

— da mesma família é, igualmente, pecunia: riqueza (inicialmente riqueza em gado).

— vemos aqui a etimologia das palavras portuguesas: pecúlio, pecuniário; e também peculiar: aquilo que é próprio, especial de uma pessoa; e há também a pecuária... e tudo da mesma família.

Estas famílias de palavras estendem-se por diferentes ramos.

 

E dos bens pecuniários passamos ao dinheiro...

A RTP 2 transmitiu, no dia 11 de Maio de 2026, um interessante programa sobre a história do dinheiro, sua origem e importância. Título "Como o dinheiro moldou o mundo" — pode ser visto aqui.

... o que faz mover o mundo mas que, infelizmente, tem um peso excessivo sobre outros valores muito mais importantes.

Já Camões criticava esse poder, os vícios a que o dinheiro pode conduzir:

Veja agora o juízo curioso

Quanto no rico, assim como no pobre,

Pode o vil interesse e sede immiga

Do dinheiro, que a tudo nos obriga.


A Polidoro mata o Rei Treício,

Só por ficar senhor do grão tesouro ...

Este corrompe virginais purezas ...

Este deprava às vezes as ciências ...

Este interpreta mais que sutilmente

Os textos; este faz e desfaz leis;  ...

Camões, Os Lusíadas, VIII, 96-99

 Etimologias:

— a palavra dinheiro deriva do latim denarius [denarius quer dizer que vale dez]  — deni: o numeral distributivo de dez].

— o denarius (surgiu nos finais do século III) era uma moeda romana de prata que valia, inicialmente, dez asses [as, assis: a primitiva moeda romana, por volta do século V a.C.]

Moeda

A palavra moeda deriva do latim moneta.

monetarius: monetário [relativo à moeda].

Moneta  era um epíteto da deusa Juno, relacionado com um episódio em que ela salvou a cidadela do ataque dos Gauleses, em 390 a.C.

É a história dos gansos sagrados, referida por vários autores, que terão acordado as tropas de Marco Mânlio quando os Gauleses se preparavam para atacar o Capitólio pela calada da noite. Os gansos consagrados a Juno, que estavam no templo da deusa — no Capitólio havia um templo de Juno —, perceberam a presença das tropas inimigas e fizeram tal barulho que acordou o cônsul Marco Mânlio que conseguiu com as suas tropas impedir a entrada dos gauleses.

- O vocábulo moneta está relacionado com o verbo monere: avisar, anunciar.

Logo, Juno Moneta : Juno avisadora.

Ora, no templo de Juno era cunhada a moeda e também aí se guardava o tesouro público; daí a palavra vir a significar "moeda".

Moeda romana de Juno Moneta
 
Outras moedas: 
Tetradracma ateniense
 
O tetradracma era uma antiga moeda de prata que circulou largamente em Atenas desde o século VI a.C. No anverso apresentava a efígie de Atena, a deusa protectora da cidade de Atenas; no reverso os símbolos da deusa: o mocho *, ave de rapina nocturna, a lua e um ramo de oliveira com uma azeitona; para além do nome da cidade — Atenas — na abreviatura ΑΘΕ.
 
— Numa ligação do passado ao presente, a actual moeda grega de 1 euro reproduz no anverso o tetradracma da antiguidade:
 

*A ave de Atena é o mocho - o mocho comum europeu/mocho galego (que tem, na classificação científica o nome Athene noctua) ou a coruja, conforme as interpretações.

Comentários

  1. Muito bom. Obrigado. Por falar em rebanhos e escravos pastores, li há pouco tempo a última edição traduzida em português ( e única a partir do original grego) de "Dafnis e Cloé", que se deve a Longo! (Ed, Assírio & Alvim, 2026). Muito interessante... sublinhei alguns brinquedos, designadamente a "flauta de Pã" ou "siringe", "gaiolas para gafanhotos" (talvez como as que fazíamos para grilos), "grinaldas de muitas flores". Obrigado

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    1. Eu também reli há pouco tempo a obra de Longo, a propósito de um festival europeu sobre o tema — se procurar, tenho aqui mais abaixo dois textos sobre Dáfnis e Cloé.

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  2. Isto está cada vez melhor! Que agradável sobremesa! Já tínhamos.a cereja no topo do bolo, agora algo mais, bem precioso, se lhe acrescentou. Bem-haja!

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  3. E porque o Latim vive connosco diariamente, aconselho a leitura de O princípio de terra nullius, in Nat. Geographic , Portugal, 12.05.2026

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