Maio, flores e mitos
Maio: mês das flores...
- celebra-se o primeiro dia de Maio com festas em que a flor é rainha (em Barcelos houve batalha de flores, tapetes de flores... )
Vêm de longe as tradições.
Maio, mensis Maius, em latim, era dedicado a Maia, deusa da fertilidade e da renovação da vida, entre os Romanos, identificada com a Bona Dea.
Era-lhe dedicado um festival no primeiro dia do mês de Maio.
Também em Maio (entre 28 de Abril e 3 de Maio) os Romanos celebravam Flora, deusa das flores e da Primavera, com um festival — as Florália — em que os homens se enfeitavam com flores e as mulheres vestiam trajes coloridos e ousados...
— flor : em Latim flos, floris
E paira no ar o convite para colher e escolher flores, reunir as melhores fores: florilégio ( do latim: flor + o verbo eligere)
Em Grego, flor é ἄνθος — façamos, então, uma antologia (ἄνθος ‘flor’+ λόγος ‘tratado’).
antologia e florilégio — colectânea, reunião de textos escolhidos, as "flores" da literatura.
Flores... Símbolo da Primavera que representa o renascer, a vida que volta aos campos após o longo e duro Inverno. É a mãe Deméter (a Ceres dos Romanos) alegrando-se com o regresso da filha que, vinda do mundo subterrâneo, volta por uns meses a terra. Assim a mitologia grega explica as estações do ano.
Vamos lá contar histórias...
Conta o mito que a bela jovem, Perséfone (Prosérpina para os Romanos), filha de Deméter, a deusa protectora dos campos e das sementeiras, foi raptada por Hades, o deus do mundo subterrâneo, quando colhia flores nos campos da Sicília, juntamente com as amigas.
Hades avistou Perséfone, ficou preso dos seus encantos, por ela se enamorou e, como Zeus não consentia no casamento, decidiu raptá-la, levando-a consigo para os seus domínios nas profundezas da terra.
Aí Perséfone se tornou rainha do reino dos mortos, como esposa de Hades.
Deméter, ao aperceber-se da falta da filha, procura-a, em grande aflição, por toda a parte, chora, grita, mas nada responde à sua dor. Desesperada, Deméter já não protege as sementeiras, os campos ficam ao abandono, os camponeses desesperam também e clamam aos deuses por auxílio.
Deméter consegue, então, com a intervenção de Zeus, um acordo com Hades: a jovem passará metade do ano com o seu marido no mundo subterrâneo e outra metade na terra com a mãe (outras versões afirmam que passava na terra apenas um terço do ano).
Assim, Deméter enfeita a terra sempre que a filha está para vir: os campos florescem, tudo canta a alegria da mãe que recebe a filha em festa, levando a sua divina protecção aos campos e às sementeiras. Algumas versões da lenda atribuem-lhe a criação das papoilas que enfeitam os campos na Primavera.
Quando Perséfone regressa aos Infernos, de novo os campos ficam tristes, como triste está Deméter com a ausência da filha.
É o mito e o encanto da poesia a superar as explicações da ciência.
Das mais antigas referências a este mito, o Hino Homérico em honra de Perséfone diz-nos que o deus apareceu à donzela transformado numa flor:
O rapto de Perséfone
Para começar, canto Deméter de belos cabelos,
a augusta deusa, ela e a sua filha
de longos tornozelos, que por Edoneu foi raptada
com o consentimento de Zeus de voz surda
e tonitroante, enquanto, longe de Deméter,
de espada de ouro, que amadurece os belos frutos,
brincava com as jovens Oceânides de largo peito
e colhia flores, rosas, açafrão e belas violetas
num macio prado, e íris e jacintos,
e também o narciso, que, por astúcia, Gaia fez brotar,
por vontade de Zeus, para a rapariga fresca
como um botão de rosa, para agradar
ao que recebe com prazer os hóspedes.
A flor tinha um brilho extraordinário e causou espanto
a todos os que a viram então, deuses imortais
e homens mortais. Da sua raiz brotara
um caule de cem cabeças e ao perfume
desta corola de flores todo o vasto céu sorriu
lá no alto, e toda a terra, e a salgada
amplidão do mar. Surpreendida,
a criança estendeu ao mesmo tempo as duas mãos
para agarrar o bonito brinquedo, mas a terra
de vastos caminhos abriu-se na planície de Nisa
e dali irrompeu, com seus cavalos imortais,
o Soberano que recebe tantos hóspedes,
o filho de Cronos de tantos nomes.
Hinos Homéricos (séc. VIII-VII a. C.) – trad. de Albano
Martins, in Antologia da Poesia Grega
Clássica, Portugália Editora, 2008.
É notável a variedade de flores aqui apresentada, para descrever a beleza dos campos da Sicília, que deste modo se alia também à beleza da jovem que desperta a paixão da divindade infernal: são as rosas, o açafrão, as violetas, a íris, os jacintos e, por fim, o narciso, tendo este aliado à beleza da flor o encanto do perfume que, ao atrair a jovem, a leva igualmente a cair na cilada do deus enamorado. Gaia, a terra, abre-se em flor, camuflando as intenções do apaixonado Hades. Levada por ele, Perséfone deixa a luz, abandona a terra e desce ao mundo das trevas de onde só regressará por curtos períodos após o acordo firmado por Hades perante Zeus.
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