Os exemplos do passado e as lições para o futuro

O passado como referência, que devia ser ensinamento, mas que nos mostra como a história se repete: sempre semelhantes as ambições humanas, os desejos de poder, os motivos para as guerras. O confronto com o passado revela-nos a índole do ser humano, que não muda praticamente nada com o avanço da civilização.
E os exemplos do passado servem aos estudiosos para a análise do presente, para confronto e até para uma certa previsão do futuro...
No artigo do Público, de 15 de Maio de 2026, Pedro Guerreiro escreve:
Ontem em Pequim, reunido com o Presidente norte-americano, Donald Trump, e segundo relatou a televisão estatal chinesa, o homólogo chinês, Xi Jinping, voltou a referir o conceito, como já o tinha feito em ocasiões anteriores. “Podem a China e os EUA superar a chamada armadilha de Tucídides e abrir um novo paradigma de relações entre grandes potências?”, questionou desta vez, com Trump como destinatário da pergunta durante a reunião matinal. “O grande rejuvenescimento da nação chinesa e tornar a América grande outra vez podem avançar de mão dada”, considerou Xi, afastando a ideia da inevitabilidade de um conflito entre uma China cada vez mais assertiva e uns Estados Unidos que a imprensa estatal caracteriza em declínio, mas deixando contudo avisos claros.
O que é, então, a "armadilha de Tucídides"?
Esta teoria da “armadilha de Tucídides” deve-se ao Professor da Harvard Kennedy School, nos EUA, Graham Allison, num artigo publicado em 2012 no Financial Times.
Mais tarde, a teoria foi aprofundada no livro Destinados à Guerra, cuja tradução saiu em português, em 2023, publicada pela Gradiva.
Nesse livro, o autor aponta exemplos históricos de conflitos entre potências em ascensão e em declínio e alerta para o risco de um conflito
entre a China e os Estados Unidos.
Mas, o que escreveu Tucídides?
Tucídides, historiador grego, nascido entre os anos 460-455 a.C (morreu em 399 a.C.), é o autor de uma extensa obra, em oito livros, sobre a Guerra do Peloponeso, a guerra que opôs Atenas a Esparta, entre os anos 431-404 a.C.
Tendo sobrevivido à peste que assolou Atenas entre 430-427 a.C., Tucídides foi, em 424 a.C., na qualidade de estratega, enviado para a costa da Trácia, mas não evitou que a colónia Ateniense de Anfípolis caísse nas mãos de Esparta. Foi, por isso, condenado ao desterro.
Viveu, portanto, o período da guerra numa posição óptima para obter informações de um e outro lado e tirar as suas conclusões. O seu objectivo era fazer uma descrição rigorosa dos acontecimentos, com um fim instrutivo, convencido de que o conhecimento do passado é um óptimo guia para o futuro. Faz uma análise dos acontecimentos, recorrendo, inclusivamente, a discursos dos generais de forma a confrontar as suas atitudes e analisá-las.
Como obra histórica é inovadora. Tucídides preocupa-se com o rigor e a precisão da informação, partindo da ideia de que a história se explica integralmente pelos comportamentos humanos e não pela intervenção dos deuses.
Quando investiga as causas da Guerra, faz uma distinção entre causas imediatas e pretextos e a autêntica causa — o medo que Esparta sente perante o expansionismo de Atenas.
[A guerra] começou pela ruptura, entre Atenienses e Peloponésios, do tratado de trinta anos, feito depois da tomada de Eubeia. Para explicar essa ruptura, escrevi primeiro as causas e razões dos desentendimentos, a fim de que um dia se não pergunte qual a origem de tamanha guerra entre Helenos. Com efeito, a causa mais verdadeira é a menos evidente na exposição. Entendo eu que os Atenienses se engrandeceram e, com isso, infundiram aos Lacedemónios receio, que os forçou a entrar em guerra. Porém, os motivos publicamente declarados por ambos, e que os levaram a denunciar o tratado e entrar em conflito, são os que vou enumerar.
Tucídides, Livro I, XXII, 4-6 (trad. de M.H. da Rocha Pereira - Hélade-Antologia da Cultura Grega)
Já antes, logo no início do Livro I , ele tinha feito a distinção entre Esparta e Atenas deste modo:
De facto, se a cidade dos Lacedemónios fosse devastada, e ficassem apenas os templos e os alicerces das construções, creio bem que, ao fim de bastante tempo, se suscitariam muitas desconfianças entre os vindouros quanto à sua glória; e, contudo, eles governam dois quintos do Peloponeso e têm hegemonia sobre a sua totalidade, e ainda, fora dele, sobre muitos aliados. No entanto, como a cidade deles não é um centro único, e não possui templos nem construções opulentas, antes se distribui a sua população por aldeias, à maneira antiga da Grécia, pareceria muito insignificante. Ao passo que, se aos Atenienses acontecesse o mesmo, se lhes atribuiria o dobro do poder que realmente têm, em face da sua aparência.
Tucídides, Livro I, X, 2 (trad. de M.H. da Rocha Pereira - Hélade-Antologia da Cultura Grega)
Poderá a História servir-nos de lição, como pretendia Tucídides?


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