A Caixa de Pandora
Todos os dias, lendo os jornais, esbarramos com expressões, referências, desde os títulos ao corpo das notícias, ligadas à Antiguidade greco-latina, da mitologia, da literatura, da história, da língua...
Esta era uma notícia de cinema, e o título continha a, tantas vezes citada, "caixa de Pandora":
Mas, quem era Pandora? E que caixa era essa?
Pandora foi a primeira mulher.
Segundo os mitógrafos Pandora foi criada como reacção de Zeus à atitude de Prometeu que deu o fogo divino aos homens.
Furioso, Zeus decidiu castigar Prometeu e os humanos. Assim, prendeu Prometeu nas montanhas do Cáucaso, enquanto uma águia lhe devorava o fígado, que se renovava a cada dia. Foi Héracles que, mais tarde, libertou Prometeu agrilhoado, matando a águia com uma flecha.
Quanto aos homens, Zeus enviou-lhes
Pandora, a primeira mulher, criada para agradar aos homens e também para punir a raça humana.
Pandora, por ordem de Zeus, foi criada por Hefesto, o deus do fogo, e por Atena, deusa da sabedoria, das artes, da estratégia e com a ajuda dos outros deuses, que lhe atribuíram todos os dons.
[Pandora, em grego Πανδώρα (παν "tudo" + δῶρα "dons"), é aquela que tem em si todos os
dons, ou "a que dá tudo"]
Era dotada de toda a beleza divina, a que que se acrescentava também a destreza manual e a capacidade para persuadir, dons que cada deus ia colocando sobre ela. Mas Hermes, para que ela não fosse tão perfeita, insuflou no seu coração a mentira e a astúcia.
Foi assim que, tendo ela sido enviada por Zeus junto de Epimeteu (irmão de Prometeu) ele ficou de tal modo seduzido por ela que esqueceu os conselhos do irmão sobre os presentes de Zeus, que ele não devia nunca aceitar por serem enganadores.
[Prometeu significa "previdente", Epimeteu, pelo contrário, é "o que aprende depois"]
Segundo uma das versões do mito, um dia Pandora, vendo um vaso que o marido possuía e que nunca devia ser aberto pois nele estavam encerrados todos os males, levada pela curiosidade, levantou a tampa e fez com que os males se espalhassem por toda a terra: a inveja, o ódio, a dor, a fome, a pobreza, a guerra e a morte. Só restou, quando ela colocou de novo a tampa, a esperança, que estava lá no fundo e não conseguiu sair.
Hesíodo, poeta grego do séc. VIII a.C., na sua obra Trabalhos e Dias assim nos descreve Pandora como a origem de todos os males:
Dantes vivia sobre a terra a raça humana
a recato da desgraça e do penoso trabalho,
e das doenças horríveis, que trazem a morte aos homens.
Mas a mulher, com suas mãos, ergueu a grande tampa da vasilha,
e dispersou-os, preparando à humanidade funestos cuidados.
DEntro da vasilha, na morada indestrutível,
abaixo do rebordo, ficou apenas a Esperança. Essa
não se evolou. Antes, já ela tornara a colocar a tampa,
por desígnios de Zeus detentor da égide, que amontoa as nuvens.
Mas tristezas aos centos erram entre os homens.
Cheia está a terra de desgraças, cheios os mares.
As doenças, umas de dia, outras de noite,
visitam à vontade os homens, trazendo aos mortais
o mal, em silêncio, pois Zeus prudente lhes retirou a voz.
E assim não há maneira de evitar os desígnios de Zeus.
(trad. de M.H.da Rocha Pereira, Hélade - Antologia da Cultura Grega)
Pandora é, deste modo, o símbolo da curiosidade feminina.

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