Camões e a Cultura Clássica
Porque ontem foi o DIA DE CAMÕES, é importante deixar aqui um breve apontamento sobre este nosso GRANDE CLÁSSICO — um CLÁSSICO UNIVERSAL porque Camões ultrapassa fronteiras.
Na epopeia como na lírica ou no teatro, Camões é um dos maiores da cultura renascentista europeia, época que faz renascer a Antiguidade, no esplendor da sua cultura, da sua literatura, dos grandes autores gregos e romanos que marcaram e continuam a marcar toda a literatura ocidental.
Imitar os clássicos fazia parte das normas do Renascimento, era um sinal de boas leituras, de conhecimento dos grandes mestres da Antiguidade e da sua cultura.
Em Camões lemos tudo o que de melhor identifica a influência da Antiguidade greco-latina, demonstrando a lição renascentista da imitatio sem descurar a criatividade. Camões serve-se dos clássicos antigos, mas introduz a sua visão, o seu toque pessoal, recria os mitos, os temas, numa aplicação ao seu tempo, ao seu modo de ver e interpretar o mundo.
Como escreveu Carlos Ascenso André, em artigo publicado no jornal Público de 27 de Fevereiro de 2026:
Camões filia-se nos clássicos, sim; inquestionavelmente. Mas não a ponto de se despojar da sua identidade. E o modo como corta esse cordão umbilical não pode deixar de nos interrogar.
A tríade educativa que caracteriza o Renascimento, natura, ars e exercitatio, entronca em preceitos que vêm já dos filósofos pré-socráticos. Podemos ler essas normas em Platão
ou em Aristóteles e, entre os Romanos, são igualmente defendidas por
Cícero e por Quintilano. Apresentam-se
como exigência para a formação do filósofo, do orador, do político,
para a educação de um verdadeiro cidadão.
Para se fazer um bom orador, ou um bom poeta, um bom mestre de retórica três aspectos são fundamentais: por um lado, terá de haver uma certa aptidão natural, um certo dom, pois nem todos somos poetas (segundo a máxima latina poeta nascitur, non fit "o poeta nasce, não se faz") — é a natura (o dom natural ou ingenium "talento"); mas isso de nada valerá se não houver conhecimentos, que se adquirem pelo estudo, pela dedicação ao trabalho intelectual — o studium, ou ars "a técnica"); depois, exige-se o exercício, a prática, a experiência (a exercitatio)
Tudo isso se encontra em Camões, como ele próprio afirma:
Nem me falta na vida honesto estudo
Com longa experiência misturado,
Nem engenho, que aqui vereis presente,
Cousas que juntas se acham raramente.
Os Lusíadas, Canto X, est 154.
Tributo a Camões, merecido e justo. Bendita a Pátria que tal filho tem!
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