Mitos— Passado e Presente
Os mitos contam histórias. Histórias que explicam factos, fenómenos... Eram a ciência dos tempos antigos. Explicam fenómenos da natureza, como as estações do ano, as tempestades ou os sismos, a noite e o dia, o sol e o vento ...
Figuras mitológicas são também a personificação de abstracções, de sentimentos: a memória, o esquecimento, o amor e o ódio, ...
Contam também, muitas vezes, histórias de horror, histórias de amores, ciúmes e ódios, de rancores, vinganças e traições, de castigos e expiações. Histórias que pretendem servir de exemplo aos mortais, para que não caiam na inveja dos deuses, nas partidas do destino.
Diremos: são coisas do passado, são histórias antigas, fantásticas, fabulosas ... No entanto, essas histórias continuam presentes, a servir de inspiração e de exemplo, ou a ser usadas como simples artifício literário, e até como exemplificação para factos actuais, verídicos, reais.
É assim que o jornal Correio da Manhã de ontem, 3 de Junho de 2026, publica um artigo de opinião sobre o abandono das duas crianças francesas pela mãe, com o título Entre o Mito de Megera e o Mito de Medeia: o "lado lunar" do "materno feminino"
Invoca, então, para dar corpo à sua tentativa de compreensão dos factos que foram notícia, duas figuras femininas da mitologia grega: Medeia e Megera.
Como se enquadram aqui?
Medeia é a mãe que mata os próprios filhos para castigar o marido Jasão, e pai das crianças, como vingança pela sua traição.
Filha do rei da Cólquida, para onde Jasão se dirigiu na Nau Argos, acompanhado de destemidos companheiros, para procurar o Velo de Ouro, Medeia ajudou Jasão a conquistá-lo, traindo o próprio pai.
Partiu, depois, da Cólquida com os Argonautas, confiante na promessa de Jasão de que casaria com ela.
Jasão e Medeia viveram algum tempo em Corinto, mas o rei local, Creonte, querendo casar a sua filha com Jasão, baniu Medeia. Atrasando a partida, esta vinga-se da rival, oferecendo-lhe uma túnica envenenada, que lhe causou a morte, assim como ao rei seu pai, e destruiu o palácio pelo incêndio que o "presente" causou.
De seguida, leva mais longe a sua vingança: mata os próprios filhos para que Jasão possa também sentir essa dor extrema.
A história mitológica é tratada por Eurípides numa tragédia apresentada nas Grandes Dionisíacas (festival em honra de Dioniso), em 431 a.C.
Quase no final da peça, temos este monólogo de Medeia, apresentando uma razão que justifica o seu acto:
"Amigas, decidida está a minha acção: matar os filhos o mais depressa que puder e evadir-me desta terra, não vá acontecer que, ficando eu ociosa, abandone as crianças, para serem mortas com mão mais hostil. É absoluta a necessidade de as matar, e, já que é forçoso, matá-las-emos nós, nós que as geramos.
Anda, ó minha desventurada mão, empunha a espada, move-te para a meta dolorosa da vida, não te deixes dominar pela cobardia, nem pela lembrança dos teus filhos, de como eles te são caros, de como os geraste."
Eurípides, Medeia (trad. de M.H.da Rocha Pereira)
Amor, ódio e vingança dominam esta mulher em desespero; assim se explica este crime hediondo.
Mas, se não havia, na altura, tribunais para julgar os criminosos, os assassinos não deixavam de ser castigados, mais ainda quando os crimes eram cometidos dentro da própria família. Era um castigo que partia de dentro de si, uma perseguição psicológica, diríamos hoje, visto que a vítima se sentia constantemente atormentada, vivendo uma vida de sofrimento interior que não conseguia superar.
As Erínias (em grego ἐρινύς "maldição vingativa", "loucura causada pela vingança dos deuses"), chamadas Fúrias pelos Romanos, eram essas divindades vingadoras. Delas fazia parte Megera, que o texto jornalístico cita.
Pertencem ao grupo das divindades mais antigas; são forças primitivas rebeldes, que não obedecem à vontade dos deuses, à semelhança das Parcas ou do Destino, aos quais até o próprio Zeus tem de se submeter. Eram geralmente 3: Alecto, a Inominável, Tisífone, o Castigo e Megera, o Rancor. Têm como missão vingar os crimes, castigar as faltas cometidas, especialmente as que são contra os familiares, as traições. Punem todos os excessos dos homens, quando eles cometem hybris, esquecendo-se da sua condição de mortais, submetidos aos deuses. São principalmente severas em relação aos crimes de morte, perseguindo o assassino e levando-o, muitas vezes, à loucura.
Megera é considerada a Erínia mais feroz nessa perseguição.
Na mitologia grega as Erínias nasceram das gotas de sangue derramado por Úrano quando foi mutilado. Eram representadas com os cabelos rodeados de serpentes e com tochas ou chicotes nas mãos.
Este tema está exemplificado na história de uma das famílias malditas da antiga Grécia — a família dos Atridas, com uma sequência de crimes, que vem desde Atreu, sempre seguidos de punição através de outro crime, visto que era dever do filho vingar a morte do pai, ou da mãe, numa sucessão que não acabava. Agamémnon foi assassinado pela mulher, Clitemnestra, como vingança pela morte da filha, Ifigénia, que ele sacrificou à deusa para garantir ventos favoráveis à partida da armada para Tróia; Orestes, filho de ambos, mata a mãe para vingar a morte do pai, mas, atormentado pelas Erínias acaba por ser salvo por Atena, que acalma as divindades vingadoras, chamando-lhes, então, Euménides e institui um tribunal na colina do Areópago, destinado a julgar os assassinos e a acabar com as vinganças de sangue.
Este tema é tratado por Ésquilo na sua trilogia Oresteia, cuja última peça tem por título Euménides, isto é, as Erínias agora tornadas mais benevolentes (do adjectivo grego εὐμενής que quer dizer "benévolo", "bom").
Diríamos agora que uma mãe que maltrata os filhos é uma megera, nome que entrou no vocabulário português para designar alguém "cruel", "de mau génio", neste caso "uma mãe desnaturada".
É a cultura clássica sempre presente, são os exemplos do passado a servir de ensinamento para o presente.
Uma bela lição, para quem há muito se passeia pelos meandros.da mitologia e para quem agora nela se inicia.
ResponderEliminarA mitologia tem exemplos para tudo.
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