Os oráculos da actualidade
É impressionante a actualidade dos mitos gregos, as lições que a Antiguidade clássica nos dá e a forma como essas lições se podem transpor para o mundo actual.
Os antigos gregos recorriam, frequentemente, aos oráculos para consultar a vontade dos deuses sobre determinado acto da sua vida, sobre resoluções a tomar, sobre as razões que estavam na base de algo que lhes acontecia.
— oraculum : a palavra latina está relacionada com o verbo orare que significa "pedir", "fazer uma súplica", "pronunciar uma fórmula ritual" aos deuses; primitivamente designava o local onde o deus era consultado.
[orare é também o étimo do português "orar" e "oração"]
Em grego usava-se a palavra χρησμός [do verbo χράω 'χρή' "dar um oráculo", "vaticinar" e "consultar um oráculo"] para designar a "resposta de um oráculo","profecia".
— dava-se também o nome de oraculum à resposta do deus ao pedido, ou à pergunta, que lhe era feita; constituía, portanto, uma profecia, visto que se referia ao futuro. No entanto o texto da resposta era algo enigmático, necessitando da interpretação de um sacerdote.
Assim, os homens interpretavam a resposta do deus, que era transmitida através da sacerdotisa, e essa interpretação ditava a sua conduta, levando, por vezes, a mudanças radicais no sentido de impedir a concretização da profecia. Acontece que a profecia acabava por concretizar-se porque o oráculo ditava a vontade dos Fados a quem nem os próprios deuses escapavam.
Por exemplo, Crono, senhor do Olimpo depois de destronar o pai, devorava os próprios filhos porque Geia e Úrano, que conheciam o futuro, lhe tinham dito que ele iria ser destronado por um dos filhos. Veio depois a ser destronado por Zeus, porque a mãe, Reia, o salvou, enganando Crono, ao dar-lhe uma pedra envolvida em panos como se fosse o filho acabado de nascer.
Também o rei de Tróia, Príamo, abandonou o filho Páris à nascença porque um oráculo lhe tinha dito que o filho que ia nascer iria causar a destruição da cidade. Não adiantou, a criança sobreviveu e, por causa dos seus actos, os gregos cercaram Tróia e destruíram-na.
São implacáveis as profecias dos deuses.
Caso paradigmático é o de Édipo.
Filho de Laio e de Jocasta, reis de Tebas, na Beócia, vindos de uma longa linhagem que entronca em Cadmo, o irmão de Europa, aquele que introduziu as letras fenícias na Grécia. Bisavô de Édipo era Polidoro, um dos filhos de Cadmo.
Mas, segundo o que nos conta Sófocles, um oráculo tinha dito que o filho de Jocasta iria matar o pai. Assim, quando a criança nasceu, Laio mandou expô-la, segundo algumas versões, no monte Citéron, onde foi encontrada pela rainha Peribeia, casada com Pólibo, rei de Corinto, e por eles foi criada. Conhecendo, já adulto, que o rei de Corinto não seria o seu verdadeiro pai [quanto à forma como o soube há muitas variantes], Édipo parte para consultar o oráculo de Delfos a fim de saber quem eram os seus progenitores.
Aconteceu que, durante a viagem, numa passagem estreita, entra em disputa com outros viajantes, e acaba por matar dois deles. Procurando exilar-se e ir para longe de Pólibo que considerava seu pai, dirige-se para Tebas, onde, depois de ter livrado a cidade da maldição da Esfinge, os Tebanos lhe dão, como recompensa, o governo da mesma, visto que o rei da cidade tinha morrido há pouco, e a rainha viúva como esposa.
E o que aconteceu depois?
Na versão que Sófocles nos conta na sua tragédia Rei Édipo, uma peste devastava a cidade e Édipo envia um emissário a Delfos para saber pela Pítia a causa de tal flagelo. A resposta que Creonte, que tinha sido enviado a consultar o oráculo, trouxe foi peremptória: era preciso vingar a morte de Laio.
É, então, o próprio Édipo a mandar investigar, e vem a saber, conhecidos os pormenores da morte e do local, que Laio era aquele viajante que ele matara no caminho antes de chegar a Tebas. Fica a saber também, por um emissário de Corinto, que Pólibo tinha morrido e que ele, Édipo, não era seu filho pois tinha sido encontrado abandonado, facto que veio a ser comprovado pelo pastor a quem Laio entregara a criança para que a expusesse nos montes. Assim se chega à verdade.
O oráculo cumpriu-se: Édipo matou o pai e casou com a mãe.
Estava, pois, tudo predeterminado, os Fados tinham decretado, o Oráculo avisara, e de nada valia a acção humana, tentando fugir ao destino: Édipo não fez mais que caminhar para o cumprir.
Esta era a crença dos antigos. Os deuses com todo o seu poder, o Destino inevitável, o oráculo intransigente eram mais fortes que toda a acção humana.
Ora, nos tempos modernos não acreditamos em oráculos, nem em destino, o que conta são as nossas acções: o destino fazêmo-lo nós! É a nossa atitude, as nossas resoluções, o nosso livre arbítrio que conduz a nossa vida!
E no entanto... algo parece querer substituir esses oráculos... Delfos e a pitonisa estarão a regressar?
No jornal Público de hoje, 7 de Junho de 2026, Patrícia Akester, jurista, doutorada na especialidade de Direitos de Autor e Desafios da Tecnologia Digital, oferece-nos um interessante confronto entre as profecias dos antigos Oráculos e os algoritmos de hoje (aqui).
Recorrendo ao mito de Édipo, às respostas do oráculo e suas consequências, a autora estabelece uma analogia com a actualidade.
E fala num "oráculo algorítmico":
Vinte e cinco séculos volvidos, ergue-se um oráculo algorítmico. Não se pronuncia em hexâmetros dactílicos, mas em probabilidades. Não exige peregrinação, porque habita os dispositivos que transportamos e dispensa interpelação. Prevê sem que se consulte; antecipa sem que se hesite; devolve sentença sem que se formule quesito. E à semelhança do presságio que pesou sobre Laio, Jocasta e Édipo, o novo oráculo não se limita a antever o futuro: engendra-o.
A inteligência artificial (IA) inaugura uma forma inédita de exercício do poder. Mais do que observar comportamentos, antecipa, selecciona e orienta. A questão já não é o que fazemos sob escrutínio, mas o que faremos sob orientação de uma mão algorítmica vigilante, prospectiva e ordenadora. A IA não infere apenas padrões: predefine caminhos e condiciona a decisão antes de ela se formar.
A tragédia edipiana mostrou-o. O vaticínio concorre para o desfecho que anuncia; a previsão algorítmica reproduz hoje essa lógica em larga escala.
Considere-se uma plataforma educativa que, ao inferir a trajectória provável de um aluno, deixa de lhe apresentar percursos mais exigentes, por os ter dado, desde logo, como improváveis. Nesse gesto velado, o caminho fecha-se antes de se abrir. A profecia cumpre-se por via algorítmica: a previsão da mediania produz a mediania prevista.
E o confronto continua:
O peregrino de Delfos era portador de uma sentença oracular obscura, cuja inquieta interpretação lhe cabia. O utilizador contemporâneo, pelo contrário, recebe o vaticínio já convertido em conduta insinuada, em escolha previamente ordenada, em via silenciosamente aberta ou interditada — sem suspeitar que sobre tudo isto pesa uma profecia algorítmica.
Ao século XXI compete proteger o intervalo onde a vontade se forma, não para celebrar mistério, mas para evitar que o ser humano se reduza a vector calculável. Sem opacidade cognitiva, não há liberdade decisória; há perfil estatístico.
A questão é apenas uma: quem escreverá o nosso amanhã? Nós, amparados pelo direito de decidirmos antes de qualquer previsão e de deliberarmos antes de qualquer condicionamento, ou um oráculo algorítmico que antevê vontade, molda acção e configura destino?
Édipo, ao menos, tinha conhecimento do vaticínio que o perseguia. Nós nem sequer o ouvimos decretar.
Precisamos mesmo de aprender com as lições dos antigos! Será que aprendemos?!


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