Poesia — a arte da palavra
Falemos de poesia e de poetas.
Recordo Florbela Espanca e cito apenas alguns versos do seu soneto:
Ser Poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens!
É ter fome, é ter sede de Infinito!
E Sophia de Mello Breyner Andresen:
A poesia não me pede propriamente uma especialização pois a sua arte é uma arte do ser.
Em Homero reconheci essa felicidade nua e inteira, esse esplendor da presença das coisas. E também a reconheci, intensa, atenta e acesa na pintura de Amadeo de Souza-Cardoso. Dizer que a obra de arte faz parte da cultura é uma coisa um pouco escolar e artificial. A obra de arte faz parte do real e é destino, realização, salvação e vida.
A linguagem poética transporta-nos para um mundo mais vivido, um mundo que sentimos no interior de nós mesmos, que nos interpela, que nos leva à interpretação e à procura.
Há dias conheci um poeta que, infelizmente para mim, ainda não conhecia. Ouvi-o falar da sua formação, do seu gosto pelas histórias, pela História e pelos mitos, do papel da família e da influência de alguns professores.
Ouvi a leitura de alguns poemas, e ficou a vontade desperta para procurar conhecer mais.
A Antiguidade greco-latina e a mitologia estão presentes, explícita ou implicitamente, em grande parte da sua poesia, que soma já muitos livros publicados e vários prémios recebidos.
Trata-se de Fernando Cabrita, poeta algarvio.
Transcrevo alguns dados biográficos extraídos de um artigo de Adriana Nogueira, professora da Universidade do Algarve, publicado no Boletim de Estudos Clássicos:
"Advogado e poeta, Fernando Cabrita (Olhão, 10 de dezembro de 1954) é autor de uma extensa obra, premiada e traduzida para várias línguas, onde raramente faltam referências à antiguidade (ausentes apenas nos dois primeiros livros, de 1988 e de 1995), tanto de mitologia como de história."
E acrescenta:
"Nos poemas de Cabrita a "interiorização" reflete-se quer em temas da antiguidade, quer em alusões em torno de um grupo de temáticas que se evidenciam, nomeadamente o espaço geográfico meridional; as múltiplas viagens e o regresso a casa; o Sul; a sociedade... e uma cidadania ativa, que espelham as preocupações e interesses do poeta."
Deixo aqui um exemplo, cuja leitura me impressionou.
O poema foi por mim transcrito do mesmo artigo onde é analisado.
Lamento do soldado grego depois da morte nas Termópilas
Pensei jamais que fora assim a morte
com tanta voracidade
sobre nós, como a sombra, a abater-se.
Trezentos éramos
Todos com rostos de homens
E histórias felizes que recordar
E amores
E juventude que mal ainda percebêramos
- e já Megisto, que lê o futuro nos cadáveres e nas aves,
nos predisse a morte ao amanhecer.
e no entanto sorríamos
e cantávamos as velhas canções de guerra
que nos haviam ensinado nossos pais:
e marchávamos
lado a lado,
ombro a ombro,
sabendo embora que cada passo era já o último
naqueles trilhos duros
e que as nossas sandálias não tocariam
o chão do regresso;
e no entanto íamos como irmãos do vento
bravos e quase imortais como deuses
e tão audazes como as marés que crescem
- e no campo de Xerxes já contudo a nossa
morte longamente era tecida.
Pensei jamais que fora assim a morte
com tantas tão inúmeras flechas.
Trezentos éramos
e sabíamos que os deuses escutavam
já a nossa ausência;
mas na terra cravámos as nossas lanças
para que não tivesse o inimigo
o vil troféu,
o corpo de Leónidas,
o que mesmo morto não deixou o seu povo.
Fomos, como a primavera, uma ténue passagem
em que houve águas e diamantes e luas.
Efialtes, o traidor,
terá agora toda a eternidade dos infernos
para recordar quantos cadáveres impolutos
entre fragas e penhascos só a morte derrubou.
Como a primavera chegámos
com cânticos e liras
e os nossos braços eram rijos
e as nossas vozes suaves
e os nossos corações corajosos e livres
- e como a primavera tivemos essa breve luz
que a morte invejosa arrebatou.
Alguém nos chorará lá longe, nas cidades.
Uma voz decerto recordará os que ontem foram vivos.
Velhos pais arderão aos deuses fogos sagrados
em intenção dos filhos mortos - e nós marcharemos lá,
nesses largos prados em que serenos e eternos,
já livres de toda a raiva e de todo o medo,
junto aos anjos seremos como pássaros.
Pensei jamais que fosse tão vasta a morte,
pensei jamais...
E, lido o poema, acrescento outras informações presentes no mesmo citado:
"Publicado em 1997, nele recorre a imagens mentais a que as evocações de certos nomes apelam, como "Termópilas", "Xerxes", "Persas" ou "Leónidas". Estes nomes terão, na criação poética, um alcance diferente dos mitos, mas não menos eficaz... pois pertencem à esfera da realidade. Uma realidade antiga, mas documentada e com consequências em pessoas concretas e no mundo, sem intervenções divinas. Este recurso pode permitir uma maior aproximação ao leitor e à sua condição."
E chamo a atenção para este parágrafo do referido artigo:
"Ainda não identificámos que mundo era este nem dissemos a data da escrita, para evitar que algum viés provocado pela idade do autor pudesse desviar a atenção do objeto estético. Contudo, merece referência: no final do poema, pode-se ler "Liceu de Faro, março de 1970", o que significa que o poeta tinha, na época, 15 anos, feitos havia apenas três meses."
in Adriana Nogueira (2024). "As Termópilas na poesia de Fernando Cabrita". Boletim de Estudos Clássicos,n.º 69, 131-151.
Acessível em formato digital:https://impactum-journals.uc.pt/bec/article/view/14419
Sem mais comentários.
Somente reler o poema, e sentir cada palavra, cada sentimento...
— o conhecimento do poeta aconteceu, no passado dia 23 de Junho, num Ciclo de Conferências organizado pela Associação de Professores de Latim e Grego (APLG)
A obra de Fernando Cabrita é uma (re)descoberta da Antiguidade Clássica e dos mitos que perduram através dos séculos. Ler Cabrita é (re) encontrar os dilemas do ser humano.
ResponderEliminarSó hoje li esta publicação. Em boa hora, porque matinal e porque me trouxe uma rica e agradável surpresa: o poema de Cabrita. Valeu a pena iniciar o dia por aqui...
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