A importância do Professor
Nesta época de exames nacionais, marcada por tanta confusão e polémica, por trocas de acusações, em que nem sempre as responsabilidades são assumidas, é bom ler um texto em que se reconhece o valor de um professor, ouvir alguém recordar, passados alguns anos, a professora que o marcou, as aulas que despertaram para a arte, para a literatura, para a cultura clássica.
Em crónica publicada no Jornal de Notícias de hoje (aqui), Afonso Reis Cabral recorda a sua Magistra, a sua professora de Latim e Grego.
Transcreve-se o texto na íntegra:
Magistra
Afonso Reis Cabral Escritor
Agora que a "Odisseia" de Christopher Nolan chegou aos cinemas, estou de novo com Ulisses, o ardiloso, nas aulas de grego e de latim. Não foi uma longa jornada de vinte anos, nem eu volto a casa para os braços de Penélope. Em todo o caso, aprender grego e latim tinha qualquer coisa de reencontro. Não me surpreenderia se, no fim do Secundário, encontrasse um cão chamado Argos à minha espera.
Chama-se Alexandra e era nossa professora. Nas salas do Rodrigues de Freitas, respeitadas sem grande amor, como a uma avó distante, a Magistra ensinava-nos a juventude das coisas velhas. Na primeira aula de latim, ainda longe das regras dos tempos verbais, das declinações e outras provações, a Alexandra mostrava-nos onde se escondia a língua morta.
Eu tinha-me preparado para aulas de quase arqueologia. Quando muito, já levava o faro apurado para procurar num sítio escondido, como os porcos buscam as trufas. Mas não contava com uma professora que nos dizia que o latim adorava ir ao supermercado. Vejam os nomes das marcas, explicava. Era a língua com que o português se cosia, e que nos continuava a coser.
Por vezes, parecia que destapávamos uma catedral em ruínas com uma colher pequena. A descoberta era tão imensa e infindável, que nem a Magistra, com a força de todo o seu magistério, seria capaz de nos revelar tudo, da cúpula aos alicerces. Mas isso não interessava para nada.
A maior parte das vezes, era um reencontro. Através do latim, voltávamos às origens da língua, o que nos ajudava muito mais do que apenas compreender marcas de retalho - mas, sobretudo, havia o encanto. Arrisco-me a dizer que são os bons professores que fazem os bons alunos, porque nunca se esquecem do encanto. Da maravilha que é descobrir novidade nas coisas antigas. Da surpresa que é a utilidade das coisas inúteis, que também consiste em conhecer-lhes a história. Mais do que isso, pela mão da Magistra chamada Alexandra, através do latim, e depois do grego, entrámos numa casa comum que é igual há tantos anos.
O cão de Argos ainda é o nosso cão. Ulisses também podíamos ser nós. Na
espantosa modernidade da literatura greco-romana, a experiência humana nunca é
suficientemente antiga para nos ser alheia. Velho de pelo menos vinte anos -
pequeno, já que só os cães pequenos vivem até tão tarde -, Argos aguarda à
porta pelo dono que tarda. Professores como a Alexandra ensinam a voltar a casa.
Que gratificante foi ler este texto de Afonso Reis Cabral! E que gratificante foi saber que a Magistra se chama Alexandra, a nossa Alexandra! Obrigada aos dois e obrigada a quem os trouxe até nós.
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