Leituras modernas da História Antiga

História — passado e presente: como ler? Como interpretar?

A polémica é antiga, mas ganhou outros contornos na actualidade, num mundo de mudanças radicais e de extremismos cegos.

Discute-se, de forma acalorada, com posições diametralmente opostas, sem análise comparativa, sem conhecimento profundo de épocas, interpretando os factos do passado à luz das ideologias do tempo actual:

— Que lições devemos, na actualidade, extrair do passado histórico? 

— Como interpretar esse passado, num presente em constante transformação, num mundo de afirmações e lutas extremadas que tende a reescrever a história, os feitos dos antigos, os seus heróis, os seus valores?

Frequentemente aproveitados com intuitos políticos, os exemplos do passado são agora "lidos" no sentido oposto, com rasgos de censura e ataque a quem quer que tenha outra opinião.

Uma das mais recentes polémicas anda à volta da adaptação cinematográfica da Odisseia de Homero pelo cineasta Christopher Nolan, cuja estreia está marcada para o dia 16 de Julho em Portugal.

Numa entrevista à Reuters, de 5 de Julho de 2026, e que podemos ler no Público (aqui), o realizador afirma que não tem a pretensão de educar:

Queremos entreter as pessoas. Na minha opinião, estamos a fazer o filme para pessoas que não sabem nada sobre Homero e este poema épico, e também para pessoas que estão muito interessadas nesse mundo e o adoram. Temos de fazer com que resulte para toda a gente. ...
Tentamos ser fiéis ao espírito da obra e, ao mesmo tempo, tentamos acrescentar-lhe algo. Tentamos dar um contributo para a discussão sobre o que A Odisseia representa. Essa conversa cultural já se arrasta há três mil anos. Então esperas poder acrescentar algo a isso, tal como acontece com a personagem do Batman, por exemplo... 

Num artigo do Expresso, Rui Pedro Tendinha, a partir das apresentações e notícias que têm vindo a lume, escreve sobre o filme:

Apesar do elenco de luxo, a adaptação para cinema de “A Odisseia”, de Homero, desilude.

Colocar Lupita Nyong’o como Helena de Troia não chega.  Pior do que isso, o marketing das “primeiras reações” era falso — o filme pode ser “brutal”, “gigante”, “épico”, mas isso era o que já se sabia, pois são os mínimos exigidos. Em boa verdade, este poderá ser o maior tiro falhado de Christopher Nolan, que adaptou “A Odisseia” de Homero com o “estratagema” de blockbuster.


As suas escolhas têm suscitado críticas de vária ordem. Destaca-se aqui a análise feita por uma  professora universitária de Atenas, em entrevista televisiva, cujo resumo encontrámos na página do facebook Greece High Definition (aqui).

Transcrevem-se alguns parágrafos em tradução: 


— Uma participação televisiva de Vana Nikolaidou, professora de Filosofia Política da Universidade de Atenas (EKPA), reacendeu o debate crescente em torno da futura adaptação de A Odisseia por Christopher Nolan, bem como a discussão mais ampla sobre como a literatura grega antiga é interpretada hoje. 
Ao participar do programa EDO, do canal ONE Channel, Nikolaidou criticou duramente comentários atribuídos à atriz Lupita Nyong'o sobre a obra épica de Homero,  argumentando que eles reflectem o que ela descreveu como uma "leitura anacrónica" de uma obra criada num contexto histórico e cultural completamente diferente. 
 
—  Nikolaidou defendeu que as epopeias de Homero devem ser compreendidas no contexto do mundo grego antigo, e não através de lentes ideológicas contemporâneas, 
... que aplicar categorias políticas modernas a textos escritos há quase três milénios corre o risco de distorcer o seu significado original, 
... enfatizou a importância histórica da literatura grega antiga, argumentando que as assembleias públicas e as ideias políticas reflectidas nos poemas homéricos ajudaram a moldar conceitos posteriores que influenciaram a civilização ocidental. 
 
Em sua opinião, essas obras deveriam ser estudadas pela sua importância histórica e filosófica, em vez de serem julgadas principalmente por padrões modernos de representação.  
 
Nikolaidou também expressou preocupação com o facto de os debates culturais contemporâneos ... substituírem a análise histórica pela interpretação ideológica ... e que essa tendência frequentemente resulta em menor atenção dada ao valor literário, filosófico e cultural dos textos clássicos.
 
Independentemente de se concordar ou não com os argumentos de Nikolaidou, os seus comentários acrescentaram uma nova dimensão a uma discussão já acalorada sobre a relação entre história, mitologia, interpretação artística e valores culturais contemporâneos.
 
O debate levanta, em última análise, uma questão mais ampla: as obras antigas devem ser interpretadas principalmente no contexto das civilizações que as produziram, ou devem ser continuamente reexaminadas sob as perspectivas e preocupações da atualidade?
 
 
Uma notícia posterior a este debate televisivo, assinada por Konstantinos Manolopoulos, em

A university professor has said the entrance to her home was vandalized after she appeared on a television news program and expressed her views on antisemitism.

Vana Nikolaidou-Kyrianidou, emerita professor of political philosophy at National and Kapodistrian University of Athens, told Kathimerini that slogans were painted at the entrance to her residence and that an accompanying text subjected her to repeated insults.  

“They vandalized the entrance to my house with slogans and posted a text in which they curse me in every possible way,” she said, adding that such incidents reflected what people face when they publicly oppose the ideas of extremist groups.

The self-described anarchist group Rouvikonas claimed responsibility for the attack. The group accused Nikolaidou-Kyrianidou of nepotism, favoritism, bullying employees and targeting students.

The professor rejected the allegations as baseless.

“There is nothing specific in the accusations they mention. These people are not my students, and I do not think they have ever set foot in my class,” she said, also denying that she had ever hired a relative.



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