O ÍNDICE ÍCARO

 O mito sempre actualizado!

A mitologia grega apresenta exemplos para as mais diversas situações da actualidade. Novos estudos, novos dados a organizar necessitam de uma designação. Como nomear? Nos mitos da Antiguidade há sempre resposta.

Com esta onda de calor que nos assola, encontramos mais um exemplo do recurso a figuras mitológicas para nomear estudos respeitantes à situação que vivemos.

 

 Lemos no jornal Público de hoje, 4 de Julho de 2026:

O impacto das altas tem­pe­ra­tu­ras na mor­ta­li­dade pode atin­gir um máximo his­tó­rico ama­nhã. O índice Ícaro, um indi­ca­dor cri­ado no Ins­ti­tuto Naci­o­nal de Saúde Dr. Ricardo Jorge (Insa) que ajuda a ante­ver o efeito do calor na mor­ta­li­dade, prevê para ama­nhã um índice de 1.86 para todo o país, o mais alto dos últi­mos 13 anos. Na popu­la­ção com mais de 75 anos sobe para 2.16. Foi com base nes­tes valo­res que a Direc­ção-Geral da Saúde (DGS) deci­diu ele­var, ontem, o nível de risco para a saúde, uma refe­rên­cia para os hos­pi­tais e cen­tros de saúde adap­ta­rem a res­posta assis­ten­cial às neces­si­da­des, nem que tenham que sus­pen­der acti­vi­dade não urgente.

 

ÍCARO! 

Era filho de Dédalo, arquitecto do Labirinto de Creta que fabricou umas asas de penas unidas com cera para si e para o seu filho, o que lhes permitiu sair do Labirinto onde o rei de Creta os tinha encerrado, ou, segundo outras versões, escapar da ilha, voando pelos céus...

Voar foi sempre o sonho do homem... Dédalo concretiza esse sonho. O inventor fez do sonho realidade, intentando algo que ao Homem não tinha sido concedido, voar.


Dédalo foi cauteloso, deu conselhos ao filho:

       Voa a meia altura, Ícaro,

 recomendo-te, para que, se fores demasiado baixo, o mar

não pese nas penas, e, demasiado alto, não as queime o fogo.”

 

Ovídio, Metamorfoses, VIII, 203-205 (trad. De Paulo Farmhouse Alberto, Livros Cotovia, 2007)


Mas o audacioso jovem não o ouviu. Sentindo-se livre, quis subir cada vez mais alto, afastou-se do pai e dos seus conselhos.

E assim, diz-nos Ovídio:

A cera derrete-se com a maior proximidade do sol

e Ícaro cai no mar Egeu, numa zona que passou a ser chamada "mar Icário":

“Os ossos, a terra os veio a cobrir; o mar possui o seu

                                                                                  nome”  (Ovídio, Arte de Amar )

 

Ícaro e a sua queda no mar, depois de arriscar subir demasiado, sem pensar nas consequências, sugere interpretações e simbolismos vários, que vão da audácia do jovem que não atende aos conselhos paternos, mais experientes, à ambição desmedida e suas consequências, à hybris e ao castigo divino sobre o mortal que se atreve a algo que não é próprio da sua condição.


Com este índice de Ícaro a ciência destaca os efeitos do calor do sol, o sol que derreteu a cera das asas e causou a morte do ambicioso Ícaro: quanto mais perto do Sol, maior era o calor e seus efeitos letais. 

É assim também o clima de calor extremo...



E o poeta recria o mito:

 

 

Ícaro

 

O sol dos sonhos derreteu-lhe as asas

E caiu lá do céu onde voava

Ao rés-do-chão da vida.

A um mar sem ondas onde navegava

A paz rasteira nunca desmentida...

 

Mas ainda dorida

No seio sedativo da planura,

A alma já lhe pede, impenitente,

A graça urgente

De uma nova aventura.

Miguel Torga


 
Queda de Ícaro, de Jacob Peter Gowy, pintor flamengo (1635-1637)- Museu do Prado (Madrid)

Comentários

  1. Ícaro como símbolo de excesso, de transgressão! A mitologia ao serviço do ser humano na era da "IA".

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