Em Férias — Lugares e Mitos (2)

Depois de Atenas, proponho uma visita à Lusa-Atenas.

Coimbra, a cidade conhecida pelo epíteto de Lusa-Atenas, devido à sua característica de cidade do conhecimento, do saber universitário, da dedicação às Letras e à Cultura, comparando-a, desse modo, com a clássica cidade-estado de Atenas. 

Em Coimbra, a cidade universitária tem como patrona ancestral e mitológica a deusa Minerva, a deusa da sabedoria.

Minerva era para os Romanos uma divindade a quem associavam as características da Atena grega, com os mesmos atributos, a mesma representação iconográfica.

E Coimbra com a sua Universidade — a sede da SAPIENTIA (sapiência, sabedoria) — só podia ter como patrona a deusa Minerva, com o epíteto de SAPIENTIA. 

Camões regista a fundação da Universidade por D. Dinis, chamando-lhe, exactamente, "o ofício de Minerva":

Fez primeiro em Coimbra exercitar-se

O valoroso ofício de Minerva;

E de Helicona as Musas fez passar-se

A pisar de Mondego a fértil erva.

Quanto pode de Atenas desejar-se

Tudo o soberbo Apolo aqui reserva.

Aqui as capelas dá tecidas de ouro,

Do bácaro e do sempre verde louro.

 

Camões, Os Lusíadas, III, 97

O poeta refere-se, ainda, à cidade cantada pelos poetas, inspirados pelas Musas do Monte Hélicon, uma montanha da Beócia onde corriam duas fontes que, segundo a tradição, conferiam inspiração poética a quem bebesse das suas águas: a fonte de Aganipe e a de Hipocrene, muito cantadas pelos poetas gregos e romanos. E Camões não esquece Apolo, o deus que comandava o coro das Musas.


Por isso, na cidade universitária por excelência, na Velha Alta Coimbrã, vemos a deusa Minerva/Sapientia abundantemente representada, nos portões da entrada, nas escadarias de acesso aos pontos principais, no selo da instituição.

 Veja-se a Insignia Universitatis Conimbrigensis:

 

 


Lá está, ao centro, a deusa Minerva, representada como Sapiência, deusa da Sabedoria, coroada (uma coroa de rainha e não o capacete de guerreira), segurando na mão direita o ceptro do poder com a esfera armilar, e na esquerda um livro aberto, simbolizando o conhecimento. Ao fundo, no chão, vemos alguns livros e ainda, do lado direito o mocho, a ave de Ninerva/Atena; do lado esquerdo, um símbolo do ensino universitário, o crivo... 

Para entrarmos no Paço das Escolas passamos pela Porta Férrea.

Aí podemos observar, na calçada, o mesmo selo da instituição universitária, representando Minerva/Sapiência:


E no alto, temos a estátua de Minerva:



Nas escadas de acesso, do lado direito, as chamadas "Escadas de Minerva" (do século XVIII), também a

deusa está representada (uma escultura barroca da autoria de Frei Cipriano da Cruz):


   


Ao fundo pode ler-se a inscrição em latim: SAPIENTIA AEDIFICAVIT

Entrando no Paço das Escolas, no pórtico da entrada para  a zona nobre, onde se encontra a Sala dos actos solenes, lá temos, de novo, uma estátua de Minerva /Sapiência:
 
 
São apenas alguns exemplos da presença da Antiguidade, com a sua cultura e os seus mitos, que podemos "estudar" e observar, com olhar atento, na Lusa-Atenas.
 
Fora do Paço das Escolas, no edifício do Departamento de Física, podemos observar, um grupo escultórico dos finais dos anos 60 do séc.XX, da autoria de Leopoldo de Almeida, vendo-se ao centro a representação de Minerva, como deusa guerreira:
 
  
(imagens de internet)

Em tempo de férias, caminhando pela cidade com o olhar de quem a vê pela primeira vez, teremos  sempre  à nossa frente uma fonte de conhecimento, um livro aberto para o saber e para a presença do passado, sempre em diálogo com o presente. 
 
 
Estes gregos, que ainda nos governam de além dos próprios túmulos desfeitos, figuraram em dois deuses a produção da arte, cujas formas todas lhes devemos e de que só não criaram a necessidade e a imperfeição. Figuraram em o deus Apolo a liga instintiva da sensibilidade com o entendimento em cuja acção a arte tem origem como beleza. Figuraram em a deusa Athena a união da arte e da ciência, em cujo efeito a arte (como também a ciência) tem origem como perfeição. Sob o influxo do deus nasce o poeta, entendendo nós por poesia, como outros, o princípio animador de todas as artes; com o auxílio da deusa se forma o artista.
 
Fernando Pessoa (1924), Textos de Crítica e de Intervenção. Lisboa: Ática, 1980.
 

Comentários

  1. Viajar pela Lusa-Atenas, sem escadas e sem calor, com guia especializada, é privilégio que poucos têm. Pela minha parte, fico-lhe grata e grata fico também a Atena/ Minerva/ Sapiência, que lhe deram o mote e ajudaram na inspiração. Bem-hajam!

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

As andorinhas e o mito

A Primavera e as andorinhas