O ECLIPSE DO SOL
Antes do avanço da ciência, na Antiguidade distante, os Mitos davam a explicação de tudo o que de extraordinário acontecia.
O MITO contava histórias, explicava fenómenos, procurando uma interpretação do sobrenatural, buscando respostas na relação entre o humano e o divino. O MITO explicava o universo, a sua natureza e as suas manifestações.
As entidades superiores regiam a vida dos mortais, aplicavam castigos e recompensas, manifestavam a sua vontade e os seus estados de espírito através de diversas formas que os homens procuravam interpretar.
Nesta relação desigual entre mortais e imortais, entre os homens e os deuses havia alguns privilegiados que tinham o dom da adivinhação, possuíam capacidades superiores para interpretar as manifestações divinas e transmitir aos outros mortais o significado de tudo o que de extraordinário acontecia. Eram os adivinhos, os intérpretes da vontade dos deuses.
No Olimpo os deuses imperavam.
Segundo a mitologia grega, Zeus, como senhor supremo, dominava os fenómenos da Natureza e dos céus; era o senhor do raio; presidia à morada dos deuses e exercia o seu poder sobre todos.
Hélio era o Sol, Selene a Lua. Antes deles, Gaia, a Terra, era a mãe. Ela gerou, sozinha, o Céu, o Mar e as Montanhas.
Hélio é um Titã, irmão de Selene, pertence à segunda geração divina. Era casado com Perseis, uma filha do Oceano e de Tétis.
Todos os dias Hélio, o SOL, percorre a terra no seu carro, até mergulhar no oceano para banhar os cavalos, dando assim início à noite. Nessa altura Selene, a LUA, percorria o sentido inverso e avançava pela terra no seu carro puxado por cavalos.
Assim os homens o entendiam, assim explicavam o passar dos dias. Se o Sol desaparecesse de repente, algo estava mal, o terror apoderava-se das suas mentes.
Um eclipse do Sol devia causar nos homens da Antiguidade um enorme pavor, como prenúncio de desgraça e de castigo dos deuses.
Por isso consultavam os videntes para interpretar esses fenómenos estranhos.
Vários textos que chegaram até nós falam desse fenómeno extraordinário — o desaparecimento do SOL
Alguns ECLIPSES NA ANTIGUIDADE
1. No texto poético
Não há coisa inesperada, nem que se jure não existir,
nem que seja de espantar, desde que Zeus, pai dos Olímpicos,
do meio do dia fez noite, ocultando a luz
do sol que brilhava. Um medo lívido desceu sobre os homens.
Desde então, pode acreditar-se e esperar-se que tudo
suceda aos humanos, e nenhum de nós se espante, nem que veja
as feras trocarem pelas pastagens marinhas
dos golfinhos as suas, e tornarem-se-lhes mais gratas que terra firme
as ondas sonoras, e àqueles ser doce a montanha.
Arquíloco (séc. VII a.C.) (trad. de M.H. da Rocha Pereira, Hélade, Antologia da Cultura Grega)
Arquíloco de Paros, soldado e poeta lírico, viveu na primeira metade do século VII a.C.
2. No texto histórico
Guerra do Peloponeso (431 a.C.): Péricles, o grande líder da Atenas, preparava uma frota de 150 navios
Já as naus estavam equipadas, e já Péricles havia embarcado na sua trirreme, deu-se um eclipse do Sol; fizeram-se trevas e todos ficaram abalados, como se fosse um grande prodígio. Notou, pois, Péricles que o piloto estava assustado e aflito. Levantou o seu manto, pôs-lho diante dos olhos, tapou-lhos, e perguntou se achava que aquilo era coisa para temer, ou sinal de uma calamidade. Ele disse que não. — Então — prosseguiu — qual é a diferença entre este caso e aquele, a não ser que o causador desta escuridão é um tanto maior do que o manto?
Ora esta história conta-se nas escolas dos filósofos.
Plutarco, Vida de Péricles, XXXV, 1-2 (trad. de M.H. da Rocha Pereira, Hélade, Antologia da Cultura Grega)
Plutarco nasceu em Queroneia por volta do ano 46 d.C. e faleceu em Delfos em 120 d.C. Historiador, biógrafo, filósofo é autor de Vidas Paralelas e Moralia.
3. Guerra entre Medos e Lídios
Heródoto relata-nos as lutas entre Medos e Lídios (590-585 a.C.) e a forma como chegaram, finalmente, à paz na Batalha de Hális (na actual Turquia), graças ao eclipse do Sol; por isso esta batalha é também conhecida como "Batalha do Eclipse"
O eclipse predito por Tales
Prosseguiam a guerra em pé de igualdade, ao fim de seis anos, quando, num recontro, aconteceu que, no meio da batalha, o dia de repente se fez noite. Esta falha da luz do dia, Tales de Mileto tinha-a anunciado antecipadamente aos Iónios, demarcando os limites do ano em que de facto se deu a mudança. Mas os Lídios e os Medos, assim que viram o dia tornar-se noite, cessaram o combate e ambas as partes se precipitaram a fazer a paz.
Heródoto, Livro I, 74 (trad. de M.H. da Rocha Pereira, Hélade, Antologia da Cultura Grega)
4. Guerra entre Gregos e Persas
Um fenómeno celeste, interpretado como eclipse, terá ocorrido durante a invasão da Grécia pelo exército Persa, em 480 a.C.
Já o exército havia partido, quando o sol, abandonando o seu lugar no céu, se tornou invisível, sem que houvesse nuvens, pois a atmosfera estava muito serena. Em vez de dia, fez-se noite. Ao ver e ao ser informado do facto, Xerxes ficou preocupado, e perguntou aos magos que é que o fenómeno queria anunciar. Responderam eles que aos Helenos queria o deus pressagiar a ruína das suas cidades. Afirmavam eles que o sol era o profeta dos Gregos, e a lua o deles. Depois de receber esta informação, Xerxes, radiante, retomou a marcha.
Heródoto, Livro VII, 37 (trad. de M.H. da Rocha Pereira, Hélade, Antologia da Cultura Grega)
Como seria bom que estas crenças dos antigos voltassem a ser sentidas pelos homens e, no dia de hoje, tocassem os governantes que comandam as guerras, os aterrorizassem e os levassem a estabelecer a PAZ!
Desconhecia, a quantidade de referências ao fenómeno. Matéria DEMASIADO interessante para ser desconhecida. Bem-haja por mais este trabalho.
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