Contar histórias...

Contar histórias! Ab ovo, desde o início.

Antes dos écrãs, de telemóvel ou de televisão, os serões passavam-se a ouvir histórias. Os nossos avós contavam histórias dos tempos antigos, que já os seus avós lhes tinham contado, histórias de vida, experiências, lendas da sua terra ou de terras vizinhas, de fadas e de mouras encantadas que povoavam os montes mais próximos. Assim eram passados os serões num ambiente familiar.

Indo mais longe, ao passado longínquo, antes de fixadas em livros, histórias de heróis, de combates e guerras, de deuses e de mortais, eram contadas pelos aedos, profissionais dessas narrativas, nos convívios dos gregos da Antiguidade.

Cultivava-se a memória. Eram narrativas vivas, que cada um contava a seu modo, numa tradição que ia passando de geração em geração, histórias que se retinham na memória e que, por isso mesmo, cada um contava como as recordava, como as sentia.

Assim se perpetuaram as narrativas dos lendários heróis de Tróia, dos guerreiros gregos, da convivência entre deuses e humanos, história depois compiladas na Ilíada e na Odisseia, por exemplo. 

Horácio, na sua Epístola aos Pisões - Arte Poética, diz-nos que Homero não contava a história desde o início (ab ouo), mas começava in medias res, quando a acção ia já avançada.

"nem a guerra troiana ele estrutura a partir do gémeo ovo.

Sempre para o acontecimento se apressa; e para as ações que já vão a meio"

(trad. de Frederico Lourenço) 

Sim, na Ilíada e na Odisseia, a narrativa dos episódios da guerra de Tróia, ou do regresso de Ulisses a Ítaca não parte do início dos factos — ab initio ou ab ouo. Nestas epopeias, como noutras que as tomaram por modelo, a narrativa começa quando os factos vão já avançados, isto é, in medias res.

Contemos, então, a história ab ouo, isto é, desde o início, ou seja, mesmo a partir de um ovo, pois tudo começa aí.

Vamos até ao Olimpo onde reinava Zeus, o poderoso senhor dos deuses e dos homens. Ele que tudo conseguia com os seus poderes divinos, era dado a paixões múltiplas, para grande raiva de sua esposa, Hera, que se vingava das pobres donzelas que Zeus seduzia.

Ora, quando na cidade grega de Esparta reinava Tíndaro, com a sua mulher, Leda, famosa pela sua beleza, Zeus perdeu-se de amores por ela e apareceu-lhe metamorfoseado em cisne, uma ave que atraiu a atenção da inocente Leda. Como consequência dessa relação, Leda pôs dois ovos gigantes dos quais nasceram dois pares de gémeos: Helena e Castor, de um, Pólux e Clitemnestra, de outro. Dizia-se que Helena e Pólux eram imortais, filhos de Zeus, enquanto Cltemnestra e Castor eram mortais. Esta origem divina explica a beleza de Helena, semelhante a uma deusa, mas Tíndaro, marido de Leda, adoptou os quatro filhos como seus.

Esta é a versão mais corrente da lenda, pelo menos a partir de Eurípides. Outras versões fazem de Helena filha de Zeus e de Némesis, também transformado em cisne. Némesis teria abandonado o ovo que um pastor encontrou e entregou a Leda. Quando Helena nasceu, Leda adoptou-a como sua filha pois era uma menina muito bonita.

E como se chega ao rapto de Helena e à guerra de Tróia?

Helena vivia, portanto, em Esparta, na corte do rei Tíndaro, seu pai, juntamente com a mãe e os irmãos.

Quando chegou a idade de casar, vários foram os pretendentes de Helena, vindos de toda a parte do mundo grego. Ela escolheu Menelau e todos os outros príncipes, os não escolhidos, tinham feito um juramento, ideia de Ulisses, de acatar a escolha de Helena e ajudar Menelau sempre que ele precisasse de auxílio. 

Depois da morte dos filhos Castor e Pólux, os Dioscuros, Tíndaro legou o seu reino a Menelau. 

Menelau torna-se, assim, rei de Esparta e Helena a sua rainha.

E Tróia e o rapto, como se chega lá? 

Passemos agora a um outro plano, uma época diferente, talvez uns anos mais tarde... 

Um outro casamento, e uma festa, a união entre um mortal e uma imortal, que viriam a ser os pais de Aquiles.

Tétis, uma divindade marinha, vai casar com Peleu, um lendário rei da região da Tessália. Prepara-se uma grande festa de noivado. Todos os deuses do Olimpo foram convidados, excepto a deusa Éris, a Discórdia, pois ela não era bem-vinda numa festa de casamento.

Quando a festa estava no auge da alegria, Éris, furiosa por não ter sido convidada, resolveu fazer estalar a confusão: lançou para o meio dos convivas um fruto dourado com uma inscrição que dizia ser destinado à mais bela das deusas. 

É evidente que todas achavam que o fruto lhes pertencia. Centrou-se a disputa entre três: Hera, Atena e Afrodite (para os romanos, Juno, Minerva e Vénus).

Esse foi o “pomo da Discórdia”, expressão que passou à posteridade.

Por vontade de Zeus, coube a Páris, um pastor do monte Ida, decidir quem vencia este "concurso de beleza". Cada uma das deusas tentou suborná-lo, oferecendo-lhe recompensas: o poder (Hera, rainha das deusas), a sabedoria (Atena). Mas Afrodite prometeu algo que para o pastor Páris era mais valioso: o amor de Helena, rainha de Esparta, famosa por ser a mulher mais bela de todo o mundo conhecido. Páris escolheu o amor e deu o fruto dourado a Afrodite.

E como vai um pastor do Monte Ida chegar junto de Helena, uma rainha grega, e conquistar o seu amor?

É que Páris tinha sido criado por pastores, vivia como pastor, mas, na realidade ele era filho de Príamo, rei de Tróia.

Acontece que, quando Hécuba, esposa do rei Príamo, estava para dar à luz o segundo filho, que viria a ser Páris, teve um sonho estranho e preocupante, que os adivinhos interpretaram assim: essa criança que ia nascer iria ser a causa da ruína da cidade.

Então o rei, para que o oráculo não se cumprisse, decidiu expor a criança nas montanhas, para que ficasse entregue ao seu destino e ao perigo das feras e das intempéries. Mas a criança salvou-se e tornou-se um jovem belo e valente que, mais tarde, participando nuns jogos organizados em Tróia e dando nas vistas pela sua valentia, foi reconhecido pelo pai (com a intervenção de Afrodite, claro...) que, com os remorsos do que tinha feito, o levou para o palácio e o tornou parte da sua família real, dando-lhe o lugar que lhe pertencia.

E foi assim que Páris, agora príncipe troiano, foi numa embaixada e Esparta, conheceu Helena e por ela se apaixonou, levando-a consigo para Tróia.

Daqui nasceu a guerra entre gregos e troianos, na qual todos os outros chefes gregos participaram, cumprindo o juramento feito no palácio de Tíndaro.

Esta é a história desde o início, ab ouo, quer dizer, desde o ovo, literalmente.

Vieira Portuense,  Leda e o Cisne (1798) — Museu Nacional de Arte Antiga- Lisboa.

Comentários

  1. Comentei ontem o magnifico texto que a A.deste blog publicou. Foi a minha última leitura do dia, ou melhor, da noite, já Abril se despedia para dar entrada a Maio. Estas histórias, contadas e recontadas há tantos séculos, ab ovo ou não, continuam a maravilhar quem as conta, quem as ouve oubquem as lê

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    1. e, quanto maior é o prazer do primeiro, maior é o maravilhamento dos dois outros. Foi o que eu senti ontem. Parabéns!

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  2. Obrigada, assídua e simpática leitora MTF. Na verdade, estas histórias do passado continuam actuais, com as devidas adaptações. São sempre histórias de encantar (ainda que, algumas, muito trágicas). Os gregos da Antiguidade estão presentes em tudo e dão-nos sempre grandes lições.

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