Prometeu

Continuemos a recordar histórias de tempos primordiais, histórias que procuram explicar os mistérios do mundo, que animam os sentimentos humanos, que alimentam a imaginação, neste afã de compreender e achar uma razão para os enigmas da vida e do universo. 

Assim se construíram os mitos, assim se deu matéria aos poetas de todos os tempos.

No texto anterior (aqui) falou-se da disseminação de todos os males através de Pandora, essa "dádiva" dos deuses, um instrumento de vingança do deus que detinha o comando de todos os seres, mortais e imortais.


Os deuses da mitologia grega, criados pelos homens à sua imagem, apresentam-se, muitos deles, ciosos do seu poder, entidades poderosas que abusam dessa sua força superior, são egoístas e vingativos. Encarnam os mesmos defeitos dos homens, elevados a uma potência máxima, como seres sobrenaturais...


No entanto, Prometeu tinha em alto grau a ideia de justiça e de bondade para com os seres mais fracos, os humanos. Ele foi o primeiro filantropo, isto é, um amigo dos homens, da raça humana (filantropo: do grego φίλος  "amigo"+ ἄνθρωπος "homem")

Era filho de Jápeto, um Titã, pertencente, portanto, à primitiva geração divina.

O poeta romano Ovídio (séc.I a.C.), na sua obra Metamorfoses, apresenta-o como o criador dos primeiros homens, mas na Teogonia do grego Hesíodo (séc.VIII a.C.), aparece como um filantropo, um amigo dos homens, aquele que roubou o fogo aos deuses para o dar aos homens.

Assim o refere também Camões em Os Lusíadas, IV, 103, na fala do Velho do Restelo, dizendo que com ele começou a ambição humana, as lutas, as guerras, considerando a aplicação negativa do poder do fogo.

 

Eis a fala:

Trouxe o filho de Jápeto do Céu
O fogo que ajuntou ao peito humano,
Fogo que o mundo em armas acendeu,
Em mortes, em desonras (grande engano!).
Quanto melhor nos fora, Prometeu,
E quanto pera o mundo menos dano,
Que a tua estátua ilustre não tivera
Fogo de altos desejos, que a movera! 


Foi esta filantropia que valeu a Prometeu o castigo de Zeus, pelo seu atrevimento, pela sua ousadia, desafiando o poder do soberano do Olimpo.


Uma das versões do mito diz-nos que, durante um banquete, depois da imolação de um boi como sacrifício, Prometeu dividiu o animal em duas partes, pondo de um lado a carne do animal, que cobriu com a pele; com a gordura envolveu os ossos, sem qualquer carne. Com esta divisão pretendeu ludibriar o rei dos deuses. Zeus, levado pelo aspecto exterior, escolheu aquela que lhe parecia a melhor parte, mas que, afinal, continha apenas o esqueleto do animal, nada mais tinha do que isso;  assim, a melhor parte, a que continha a carne, ficou para os humanos. Quando o rei dos deuses se apercebeu do logro, ficou furioso e decidiu castigar os mortais deixando de lhes enviar o fogo. 

Prometeu, mais uma vez, foi em auxílio dos humanos: roubou ao Sol algumas sementes do fogo e levou-as para terra. Segundo uma outra tradição ele teria roubado o fogo das forjas de Hefesto.

Então, Zeus castigou Prometeu, prendendo-o no cimo do monte Cáucaso, onde uma águia todos os dias lhe comia o fígado, que logo se renovava e continuava a ser devorado.

É este mais um exemplo da vingança do rei dos deuses contra aqueles que ousam enfrentar a sua autoridade.


No texto de Ovídio, Prometeu criou o homem:

A criação do homem

Faltava ainda um ser mais sublime que estes, mais capaz

de conter uma alta inteligência, que pudesse reger os outros.

Nasceu então o homem. Este, ou o fez de semente divina

aquele artífice do universo, a origem do mundo melhor;

ou então a terra recente, separada há pouco do alto éter,

talvez ainda contivesse sementes do céu, seu parente, terra

que o filho de Jápeto, misturando com água da chuva,

moldou à imagem dos deuses que governam tudo.

E se os outros animais, dobrados para baixo, olham o chão,

conferiu ao homem uma cara virada para cima, e instruiu-o

a olhar para o céu e a erguer o rosto erecto para os astros.

Deste modo, o que há pouco era terra em bruto e sem forma

transformou-se e assumiu formas de homens jamais vistas.

Ovídio, Metamorfoses, I, 76-88.


Simbolismo

Ao revoltar-se contra a atitude de Zeus em relação aos fracos humanos, ao colocar-se ao lado dos homens, Prometeu simboliza a irreverência, a ousadia, o protesto contra a injustiça. É o símbolo da liberdade contra a opressão, é o heroísmo no sofrimento por uma causa.

Dando aos homens o fogo, Prometeu traz-lhes a esperança, traz a luz à humanidade; o fogo é o símbolo da cultura, da paixão da busca do conhecimento.


Assim o poeta reinterpreta o mito: 


Vem, doce morte

Triste,

Meu coração resiste

Por fidelidade.

Prometeu,

Dará tudo o que tem à humanidade.

Dará todo o calor que o aqueceu.

 

Mas cada vez mais triste e mais cansado,

Que ninguém o demore no caminho.

Um coração só é feliz parado,

Quando não é traição ficar sozinho.


Miguel Torga, Diário IV (Coimbra, 26 de Fevereiro de 1949)

 
Estátua de Prometeu no Campus da Universidade do Minho — o Titã trazendo "o fogo do conhecimento"

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