A TERRA NATAL DE HOMERO

A biografia de um poeta... o local de nascimento... são importantes para conhecer a obra ou, pelo contrário, é o lugar que fica engrandecido porque nele nasceu o poeta?

É a obra que imortaliza o poeta, que o transforma em herói nacional, e mesmo universal, de tal modo que todos querem beneficiar dessa glória e reivindicam para si o nascimento do seu autor.

No seu discurso em defesa do poeta Árquias (Pro Archia Poeta oratio), Cícero argumentava que só o facto de Árquias ser um poeta devia ser considerado motivo suficiente para Roma se sentir honrada em conceder-lhe a cidadania. 

E dá o exemplo de Homero de quem são várias as cidades a reivindicar o privilégio de ter sido o seu berço.

"Colofónia diz que Homero é seu cidadão; Quios reclama-o como seu; Salamina exige-o; Esmirna, por seu turno, assegura que ele lhe pertence e até um santuário lhe dedicou na cidadela. Além disso, lutam entre si e porfiam por ele muitíssimas outras cidades."  

(VIII, 19 — trad. de Louro Fonseca)

Ora, o tema do nascimento de Homero voltou a estar em destaque, tudo por causa do mais recente filme sobre a Odisseia.

O filme "Odisseia" de Christopher Nolan teve o grande mérito de despertar o interesse pela obra homérica e pelos temas da antiguidade clássica, pela mitologia grega, pela Grécia antiga e pela sua cultura.

Reavivou os estudos sobre Homero e a sua obra, levantando mesmo a velha questão sobre a terra natal do poeta que deu forma às narrativas épicas.

                                             Observador, 20.Agosto.2026

Uma notícia recente dá-nos conta da discussão que se levanta, de novo, na Turquia sobre a possível ligação de Homero à cidade de Esmirna. (notícia que pode ser lida aqui)

                                                                                            Publicado a 29/08/2026

A tradição, o mito é aqui mais forte que a verdade histórica comprovada. Como diria Pessoa: " o mito é o nada que é tudo", e só isso basta.

Alguns parágrafos dessa notícia, que cita uma entrevista à arqueóloga Aylin Erdem, investigadora na Universidade de Ege, situada em Bornova, Esmirna: 

Com “The Odyssey”, Christopher Nolan reacende o debate sobre as origens de Homero e centra atenções em Esmirna; em entrevista, a arqueóloga Aylin Ümit Erdem aponta pistas antigas que ligam o poeta à cidade, mas lembra que falta prova física.

Há muito tempo que o poeta é associado à região de Izmir, na costa do Egeu da Turquia, que durante grande parte da sua história foi conhecida como a antiga Esmirna.

Para a arqueóloga turca, professora Aylin Ümit Erdem, especialista da Universidade Ege, o entusiasmo em torno do filme oferece uma oportunidade importante para reexaminar as realidades históricas, linguísticas e materiais que ligam Homero à antiga Esmirna, a Izmir de hoje.

“Quando avaliamos Homero, lidamos com o autor reconhecido da ‘Ilíada’ e da ‘Odisseia’”, disse a professora Erdem numa entrevista exclusiva à Euronews. 

“Os especialistas debatem há muito tempo como é que um poeta do século VIII a.C. conseguiu descrever a Guerra de Troia, um conflito ocorrido 400 anos antes, com tamanhos pormenor e profundidade trágica. Alguns atribuem-no a uma tradição oral contínua de quatro séculos, outros consideram os épicos uma compilação de relatos de vários bardos.”

Independentemente dos debates sobre a autoria, a professora Erdem sublinha que as fontes antigas apontam de forma consistente para Izmir.

—  “Desde o historiador Heródoto, no século V a.C., até ao geógrafo Estrabão, no século I a.C., os autores antigos afirmaram explicitamente que Homero era de Esmirna. Foram sugeridos outros locais, como Quio ou Cime, mas Esmirna mantém, desde a Antiguidade, a posição de um dos candidatos mais fortes.”

Segundo a professora Erdem, os principais argumentos científicos que ligam Homero a Izmir estão na linguagem dos textos e na geografia urbana do século VIII a.C.

— “Os épicos foram redigidos predominantemente no dialeto jónico, mas incluem um vocabulário eólico significativo e termos gregos arcaicos”, explicou a professora Erdem à Euronews. 

“Do ponto de vista geográfico, a Esmirna do século VIII a.C. – localizada em Bayraklı Höyük – situava-se exatamente na fronteira que separava a região eólia, a norte, da jónica, a sul. Bayraklı foi fundada como povoamento eólio antes de integrar a Liga Jónica. Um bardo a compor neste ponto específico utilizaria naturalmente este vocabulário singular de dois dialetos.”

Além disso, Erdem sublinha que Bayraklı Höyük era o único centro urbano fortificado ativo na bacia de Izmir durante o século VIII a.C., o que o torna o cenário histórico principal em que Homero teria vivido.

No entanto, há que ter cautela com o rigor científico:

“É preciso ser claro: ainda não dispomos de provas arqueológicas diretas e concretas que demonstrem explicitamente que Homero viveu em Esmirna”, enfatizou Erdem à Euronews. “Não foram descobertos em Bayraklı artefactos do século VIII a.C. com o nome de Homero inscrito, sobretudo porque essas camadas antigas, em profundidade, ainda não foram totalmente expostas em amplas áreas de escavação.”

Erdem assinala que artefactos posteriores, como moedas helenísticas cunhadas em Esmirna com o retrato de Homero ou a estátua de culto sentada encontrada no santuário vizinho de Klaros, mostram sobretudo como as gerações seguintes reivindicaram o poeta como filho da terra, em vez de constituírem provas da sua própria época.

“É vital manter as escavações arqueológicas, com o apoio do nosso Ministério da Cultura e Turismo e das autoridades locais”, acrescentou Erdem. “Se algum dia aparecer um achado direto ligado a Homero, virá de escavar mais fundo nestas camadas.”

Enquanto o meio académico aguarda resultados definitivos das escavações, o entusiasmo local em Izmir atingiu um auge, com responsáveis e investigadores a destacarem uma gruta em Bornova onde se alega que Homero terá composto as suas obras.

Nas encostas à saída da cidade, uma cavidade húmida no vale de Bornova é há muito venerada pelos habitantes como o lugar onde Homero compôs as suas obras-primas. Os textos antigos referiam com frequência o bardo como Melesígenes (“nascido do Meles”), numa alusão ao rio que corre junto de Bayraklı.

“Preservar o legado de Homero é um dever que devemos à humanidade. É um dos pais fundadores da literatura”, afirmou à AFP o presidente da câmara de Bornova, Omer Eski.

“As histórias que conta falam desta terra. A questão não é se devemos reivindicar Homero ou não. A sua história também é nossa”, acrescentou.

“Este lugar foi sempre chamado Vale de Homero pelos habitantes. Viajantes de todo o mundo vinham ver a gruta onde se diz que Homero compôs os seus poemas”, disse à AFP o investigador turco Altan Altin.

“Para mim, não há qualquer dúvida: Homero é de Bornova. Em qualquer caso, é de Jónia, que inclui Esmirna e Quios. É destas terras”, afirmou Altin, que escreveu um livro sobre o tema, sublinhando que o legado do poeta faz a ponte entre histórias regionais.

“Homero tem 2 800 anos, enquanto a fronteira turco-grega tem apenas um século. Homero é grego. Homero é anatólico. Nenhum de nós é mais antigo do que ele, nem sequer os nossos países.”

Arqueólogos como Mehmet Akif Erdem salientaram também que moedas e estátuas mostram que os antigos habitantes viam Homero como um dos seus.

Embora os indícios históricos e linguísticos remetam de forma constante para a antiga Izmir, a prova física decisiva continua escondida debaixo da terra.

                              O Vale de Homero, em Esmirna — grutas associadas ao poeta ("Aqui Homero terá escrito a Odisseia")

 

 
Monumento a Homero, junto ao rio Meles, em Esmirna                                        (fotos da internet)

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