Nomes que falam... Mitos que explicam...

Reflexões ...

  a propósito de uma questão colocada num concurso televisivo à qual o concorrente não soube responder...

 
A origem dos nomes:

—  Via Láctea ou Estrada de Santiago, como é também conhecida na Galiza a noutras regiões da Europa ocidental

 

Via Láctea — do latim: via "caminho", "estrada"; lactea - adjectivo feminino  (lacteus, lactea, lacteum: de leite; lácteo; leitoso ; da cor do leite —  vindo de lac, lactis: leite)

O nome deve-se, portanto, à aparência — uma faixa de cor leitosa que atravessa o céu nocturno, uma luz que é emitida pelo conjunto de estrelas que formam o disco galáctico.

— Galáxia — numa definição simples, de dicionário: "Sistema estelar afectando a forma de um disco com um bolbo central, que contém uma centena de mil milhões de estrelas, entre as quais o Sol e que, visto através do contorno, se traduz, para um observador terrestre, por um rasto brilhante que não é mais que um formigueiro de inúmeras estrelas" (Dicionário Lello Universal)

"No bojo central, que possui forma alongada, há uma grande concentração de estrelas, sendo que o exato centro da galáxia abriga um buraco negro supermassivo. Ao seu redor estende-se o disco galáctico, formado por estrelas dos mais diversos tipos, nebulosas e poeira interestelar, dentre outros. É nesta proeminente parte da Via Láctea que se manifestam os braços espirais. "

Etimologia:

galáxia — do grego — γαλαξίας (adjectivo): de leite, lácteo, vindo de γάλα, γάλακτος  "leite"

disco galáctico — do grego: γαλαξίας κύκλος  

                 κύκλος : círculo, movimento circular; disco (dos astros)

                 γαλαξίας (adjectivo): de leite, lácteo

Logo:

Galáxia  e Via Láctea, vindo do grego ou do latim, a mesma razão presidiu à escolha do nome.


 O Mito

A relação com a mitologia leva-nos até Hera e às traições do seu marido, Zeus, o senhor do Olimpo.

Zeus apaixonou-se por Alcmena, que era casada com Anfitrião. Mas, como ao rei dos deuses nada era impossível, aproveitando a ausência de Anfitrião numa expedição contra os Teléboas, disfarçou-se de Anfitrião e seduziu Alcmena que não se apercebeu do disfarce. Para dar mais veracidade, Zeus levou consigo Hermes, o seu mensageiro, transformado em Sósia, o escravo de Anfitrião que sempre o acompanhava. Desse modo, o senhor do Olimpo entrou em casa de Alcmena, julgando ela que se tratava do seu marido. Dessa união com Zeus, Alcmena deu à luz dois gémeos, um deles Héracles, filho de Zeus.

Uma tradição conta que, para que Héracles alcançasse a imortalidade, Hermes terá levado a criança a ser amamentada no seio de Hera, aproveitando, com astúcia, o momento em que a deusa estava adormecida. Quando Hera acordou repeliu com força a criança e o leite que escorreu do seu seio deixou um rasto no céu — a Via Láctea.

Deste modo temos uma explicação mitológica, a origem da Via Láctea ligada a uma divindade da mitologia grega.


E o mito inspirou os artistas de todas as épocas. Os amores de Zeus/Júpiter, disfarçado de Anfitrião foram tratados na literatura.

Citando apenas alguns exemplos significativos: 

— na literatura latina, o dramaturgo Plauto, no séc. III a.C., tratou o tema na sua comédia Anfitrião, que foi ela mesma inspiração de escritores posteriores

Na literatura portuguesa e brasileira:

— no século XVI, Luís de Camões, escreveu um Auto dos Enfatriões

— António José da Silva, o Judeu, no século XVIII, Amphitrião ou Júpiter e Alcmena, uma ópera ao gosto italiano da época, representada, em 1730, no Teatro de Bairro Alto

—  Um Deus dormiu lá em casa, do brasileiro Guilherme de Figueiredo, publicado em 1957

— Anfitrião outra vez, de Augusto Abelaira, 1980

— Uma nuvem sobre a cama, de Norberto Ávila, representado pela primeira vez em 1991

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Na língua ficaram os nomes tornados substantivos comuns:

— um anfitrião é o dono da casa em relação aos convidados; aquele que nos recebe

— um sósia é alguém muito parecido, uma cópia de outra pessoa

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Assim o universo se explica, a poesia embeleza a realidade, a ciência não exclui o mito.

No Canto X d' Os Lusíadas, Camões, depois de ter povoado todo o poema épico de divindades do panteão greco-romano, põe na boca de Tétis a negação a sua própria existência, dando aos deuses apenas uma função de embelezamento poético, e a permanência dos nomes dados às descobertas da ciência.

Aqui, só verdadeiros, gloriosos
Divos estão, porque eu, Saturno e Jano,
Júpiter, Juno, fomos fabulosos,
Fingidos de mortal e cego engano.
Só pera fazer versos deleitosos
Servimos
; e, se mais o trato humano
Nos pode dar, é só que o nome nosso
Nestas estrelas pôs o engenho vosso
.

Camões, Os Lusíadas, X, 82

 

Na pintura, vários artistas representam o mito que explica a origem da Via Láctea:

 
Tintoretto (1575) — National Gallery (Londres)

Peter Paul Rubens (1638) — Museu do Prado (Madrid)

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