O ETERNO FLUIR DO TEMPO — a visão dos poetas
A propósito do comentário ao texto anterior — "Tempus fugit"— da assídua leitora MTF, a quem agradeço, transcrevo aqui alguns versos, em tradução, da Ode de Horácio sobre a passagem do tempo, referindo-se o poeta às estações do ano e às estações da vida humana:
Fugiram as neves, já a erva aos campos retorna,
e as folhas às árvores,
a terra muda e renova-se, e os rios, minguando,
correm entre as margens;
a Graça, com as suas irmãs gémeas e as Ninfas,
aventura-se nua a conduzir os coros.
Nada esperes de imortal, é o conselho do ano e da hora
que o ameno dia rouba.
Os Zéfiros tornam brando o frio, à Primavera sucede o Verão
que há-de morrer
assim que o frutífero Outono trouxer suas colheitas, e então
lesto voltará o árido Inverno.
Céleres recuperam as luas suas mortes no céu:
nós, quando caímos
onde o pai Eneias, o rico Tulo e Anco estão,
pó e sombra somos.
Horácio, Odes, IV, 7 (tradução de Pedro Braga Falcão, Livros Cotovia, 2008)
— Também o nosso Camões, seguindo o exemplo de Horácio, escrevia:
Assi se vai passando
a verde Primavera e seco Estio;
trás ele vem chegando
depois o Inverno frio,
que também passará por certo fio.
...
Porque, enfim, tudo passa;
não sabe o tempo ter firmeza em nada;
e nossa vida escassa
foge tão apressada
que, quando se começa, é acabada.
Camões, Ode IX
— Da literatura latina, recordemos o poeta Ovídio.
Nestes versos ele estabelece um confronto entre as estações do ano e a vida humana:
Não vês como o ano se desenrola em quatro fases
no seu percurso. À imitação da nossa própria vida?
Pois, no início da Primavera é terno e lactente, semelhante
à idade da meninice. Então, a erva jovem, sem vigor, é
rechonchuda e tenra, e delicia os lavradores com esperanças.
Então, há flores por toda a parte, e com as cores das flores
brinca o nutriente prado, e não há ainda pujança nas folhas.
Depois da Primavera, o ano, mais robusto, passa ao Verão,
e torna-se um jovem forte. Na verdade, não há estação
mais robusta, nem outra mais luxuriante, nem mais ardente.
Sucede o Outono, que, pondo de lado o ardor da juventude,
é maduro e calmo, moderado, a meio caminho entre jovem
e velho, mas já com as suas têmporas salpicadas de cãs.
E lá chega o Inverno, a tremer de frio, senil, o passo trémulo,
despojado de cabelo, ou então, se algum tiver, todo branco.
Ovídio, Metamorfoses, XV, 199-213 (tradução de Paulo Farmhouse Alberto, Livros Cotovia, 2007)
(permiti-me destacar, em cada poema, os versos mais significativos)
Aproveitemos, então, o conselho: CARPE DIEM!
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