O que é a BELEZA?
À Beleza
Não tens corpo, nem pátria, nem família,
Não te curvas ao jugo dos tiranos.
Não tens preço na terra dos humanos,
Nem o tempo te rói.
És a essência dos anos,
O que vem e o que foi.
És a carne dos deuses,
O sorriso das pedras,
E a candura do instinto.
És aquele alimento
De quem, farto de pão, anda faminto.
És a graça da vida em toda a parte,
Ou em arte,
Ou em simples verdade.
És o cravo vermelho,
Ou a moça no espelho,
Que depois de te ver se persuade.
És um verso perfeito
Que traz consigo a força do que diz.
És o jeito
Que tem, antes de mestre, o aprendiz.
És a beleza, enfim. És o teu nome.
Um milagre, uma luz, uma harmonia,
Uma linha sem traço…
Mas sem corpo, sem pátria e sem família,
Tudo repousa em paz no teu regaço.
Miguel Torga, Odes.
O BELO : τὸ καλόν
"à Grécia, cuja voz ainda paira nas nossas mais preciosas palavras, entre as quais, quase intacta, a palavra poesia. À Grécia, sem a qual não teríamos aprendido a beleza, sem a qual não teríamos nada”
Pode a beleza definir-se? O que é o Belo
László Kras Sznahorkai, escritor húngaro, prémio Nobel da Literatura em 2025, em entrevista publicada no jornal Público - Ipsilon, de 10 de Julho de 2026, falou de beleza e de literatura, entre outros temas:
"Vejamos Leonardo da Vinci. Podíamos observá-lo
durante horas enquanto pintava. Veríamos apenas um homem com pincéis, tintas
e uma tela. Mas chega um momento em que tudo isso desaparece. Desaparecem
os pincéis. Desaparece a tinta. Desaparece o próprio Leonardo. E diante
de nós permanece apenas a beleza. Uma beleza cuja origem já não conseguimos
explicar. Não é a tinta, não é o atelier, não é sequer o génio técnico do
pintor. Há qualquer coisa que excede
todos esses elementos. É esse lugar que a beleza ocupa. No mundo contemporâneo, profundamente
fragmentado e inseguro, talvez seja a beleza, mais do que a fé, aquilo que
ainda consegue preencher esse espaço. Porque todos os seres humanos conhecem a beleza. ...
Por isso, hoje, se tiver de dar um nome ao transcendente, dou-lhe este: beleza. A beleza é o único elemento do transcendente que ainda consigo nomear."
E fala de leitura e imaginação:
“Sem imaginação não é possível ler literatura, nem compreender verdadeiramente a arte, e não tenho nenhum interruptor que permita desligar a minha imaginação”
A propósito da exposição “Formas no Espaço… através da Luz (no Tempo)”, com moderação de Joana
Stichini Vilela, jornalista do Observador, João Pinharanda (Diretor Artístico do MAAT), Sara
Bichão (Artista Visual), e Pedro Cabrita Reis (Artista Plástico) falam de beleza, de arte e do papel de um Museu (20 de Fevereiro de 2016, ver e ouvir aqui ):
Em resposta à questão se ainda fará sentido falar-se em beleza, João Pinharanda dá-nos a sua opinião:
Temos que perceber, hoje em dia, que a valoração de uma obra de arte tem que ver com toda uma outra complexidade de critérios que ultrapassam esta simplicidade que tínhamos na idade dos gregos, por exemplo. É verdade que na linguagem de todos os dias utilizamos estes conceitos, sem critério. Confundimos belo com bonito. Há um mistério qualquer que nos diz que a obra é capaz de inquietar. E eu acho que isso é o mais importante.
E acrescenta:O belo não é uma coisa simples, contrariamente ao que as pessoas
julgam. O belo é uma coisa terrível. O belo pode provocar o medo. Porque
nos ultrapassa de tal maneira que nos remete para uma dimensão que só
um criador poderá alcançar.
O que é a beleza? Não é, se não, o exercício da harmonia. A beleza não
é, se não, o exercício do cânone da forma. E o cânone da forma é
harmonia. A harmonia é a forma superlativa da beleza. É o equilíbrio que
faz com que a existência do ser humano seja plena. O que procuramos na
beleza se não essa serenidade?
Harmonia ... Equilíbrio ... μηδὲν ἄγαν ... nada em excesso — assim pensavam os Gregos
“O Grego crê no divino interior ao universo. É neste mundo, no estar, no aparecer, na aletheia, que ele busca o ser.
A este mundo em que está o Grego chama “kosmos”. Mas kosmos, oposto a chaos, não significa apenas o mundo, mas mundo ordenado-belo.
Esta ordenação é em si própria criadora e divina; e ao esculpir um corpo o artista grego tenta mostrar a relação do homem com uma ordem que é a íntima estrutura do kosmos, da physis, do mundo do qual o homem brota e se ergue. ...
Descobrir a ordem da natureza, descobrir a felicidade e a harmonia múltipla e radiosa da natureza, será descobrir o divino. Por isso a arte grega é naturalista.
Sophia de Mello Breyner Andresen, O Nu na Antiguidade Clássica, Caminho, 1992.
τὸ καλόν : o belo
κόσμος : ordem; boa ordem; ordem do universo; o cosmos; o mundo
daqui vem o português: cosmética
O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo.
O que há é pouca gente para dar por isso.
Álvaro de Campos

Vénus de Milo (Milo, ou Milos, ilha do mar Egeu onde a estátua foi encontrada, em 1820), uma criação helenística, de finais do século II a.C. – Paris, Museu do Louvre.
Representando Afrodite (deusa da beleza entre os Gregos), simboliza o ideal de beleza da época, tanto do rosto como do corpo. Um rosto sereno, um olhar distante, enigmático transmite tranquilidade, paz; nada ali está em excesso (meden agan: “nada em excesso”- a máxima grega). Pela posição do corpo e as ondulações no manto e nos cabelos, parece estar em movimento.
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