O que é a BELEZA?

 À Beleza

Não tens corpo, nem pátria, nem família,
Não te curvas ao jugo dos tiranos.
Não tens preço na terra dos humanos,

Nem o tempo te rói. 

És a essência dos anos, 

O que vem e o que foi.

És a carne dos deuses,
O sorriso das pedras,
E a candura do instinto.
És aquele alimento
De quem, farto de pão, anda faminto.

És a graça da vida em toda a parte,
Ou em arte,
Ou em simples verdade.
És o cravo vermelho,
Ou a moça no espelho,
Que depois de te ver se persuade.

És um verso perfeito
Que traz consigo a força do que diz.
És o jeito
Que tem, antes de mestre, o aprendiz.

És a beleza, enfim. És o teu nome.
Um milagre, uma luz, uma harmonia,
Uma linha sem traço…
Mas sem corpo, sem pátria e sem família,
Tudo repousa em paz no teu regaço.

Miguel Torga, Odes.

 

O BELO : τὸ καλόν 

"à Grécia, cuja voz ainda paira nas nossas mais preciosas palavras, entre as quais, quase intacta, a palavra poesia. À Grécia, sem a qual não teríamos aprendido a beleza, sem a qual não teríamos nada”

Hélia Correia, em 2015, ao receber o Prémio Camões, dedica-o à Grécia


Pode a beleza definir-se? O que é o Belo

László Kras Sznahor­kai, escritor húngaro, prémio Nobel da Literatura em 2025, em entrevista publicada no jornal Público - Ipsilon, de 10 de Julho de 2026, falou de beleza e de literatura, entre outros temas:

"Veja­mos Leo­nardo da Vinci. Podí­a­mos observá-lo durante horas enquanto pin­tava. Verí­a­mos ape­nas um homem com pin­céis, tin­tas e uma tela. Mas chega um momento em que tudo isso desa­pa­rece. Desa­pa­re­cem os pin­céis. Desa­pa­rece a tinta. Desa­pa­rece o pró­prio Leo­nardo. E diante de nós per­ma­nece ape­nas a beleza. Uma beleza cuja ori­gem já não con­se­gui­mos expli­car. Não é a tinta, não é o ate­lier, não é sequer o génio téc­nico do pin­tor. Há qual­quer coisa que excede todos esses ele­men­tos. É esse lugar que a beleza ocupa. No mundo con­tem­po­râ­neo, pro­fun­da­mente frag­men­tado e inse­guro, tal­vez seja a beleza, mais do que a fé, aquilo que ainda con­se­gue pre­en­cher esse espaço. Por­que todos os seres huma­nos conhe­cem a beleza.  ...

Por isso, hoje, se tiver de dar um nome ao trans­cen­dente, dou-lhe este: beleza. A beleza é o único ele­mento do trans­cen­dente que ainda con­sigo nomear."  

E fala de leitura e imaginação:

“Sem ima­gi­na­ção não é pos­sí­vel ler lite­ra­tura, nem com­pre­en­der ver­da­dei­ra­mente a arte, e não tenho nenhum inter­rup­tor que per­mita des­li­gar a minha ima­gi­na­ção”

 

A propósito da exposição “Formas no Espaço… através da Luz (no Tempo)”, com moderação de Joana Stichini Vilela, jornalista do Observador, João Pinharanda (Diretor Artístico do MAAT), Sara Bichão (Artista Visual), e Pedro Cabrita Reis (Artista Plástico) falam de beleza, de arte e do papel de um Museu (20 de Fevereiro de 2016, ver e ouvir aqui ):

 

Em resposta à questão se ainda fará sentido falar-se em beleza, João Pinharanda dá-nos a sua opinião:

Temos que perceber, hoje em dia, que a valoração de uma obra de arte tem que ver com toda uma outra complexidade de critérios que ultrapassam esta simplicidade que tínhamos na idade dos gregos, por exemplo. É verdade que na linguagem de todos os dias utilizamos estes conceitos, sem critério. Confundimos belo com bonito. Há um mistério qualquer que nos diz que a obra é capaz de inquietar. E eu acho que isso é o mais importante.

E acrescenta:

O belo não é uma coisa simples, contrariamente ao que as pessoas julgam. O belo é uma coisa terrível. O belo pode provocar o medo. Porque nos ultrapassa de tal maneira que nos remete para uma dimensão que só um criador poderá alcançar.

O que é a beleza? Não é, se não, o exercício da harmonia. A beleza não é, se não, o exercício do cânone da forma. E o cânone da forma é harmonia. A harmonia é a forma superlativa da beleza. É o equilíbrio que faz com que a existência do ser humano seja plena. O que procuramos na beleza se não essa serenidade?


 Harmonia ... Equilíbrio ...  μηδὲν ἄγαν ... nada em excesso — assim pensavam os Gregos


“O Grego crê no divino interior ao universo. É neste mundo, no estar, no aparecer, na aletheia, que ele busca o ser.

A este mundo em que está o Grego chama “kosmos”. Mas kosmos, oposto a chaos, não significa apenas o mundo, mas mundo ordenado-belo.

Esta ordenação é em si própria criadora e divina; e ao esculpir um corpo o artista grego tenta mostrar a relação do homem com uma ordem que é a íntima estrutura do kosmos, da physis, do mundo do qual o homem brota e se ergue. ...

Descobrir a ordem da natureza, descobrir a felicidade e a harmonia múltipla e radiosa da natureza, será descobrir o divino. Por isso a arte grega é naturalista.


Sophia de Mello Breyner Andresen, O Nu na Antiguidade Clássica, Caminho, 1992.

 

τὸ καλόν  : o belo

κόσμος : ordem; boa ordem; ordem do universo; o cosmos; o mundo

daqui vem o português: cosmética 



O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo.

O que há é pouca gente para dar por isso.

Álvaro de Campos

 

Vénus de Milo  (Milo, ou Milos, ilha do mar Egeu onde a estátua foi encontrada, em 1820), uma criação helenística, de finais do século II a.C. – Paris, Museu do Louvre.

Representando Afrodite (deusa da beleza entre os Gregos), simboliza o ideal de beleza da época, tanto do rosto como do corpo.  Um rosto sereno, um olhar distante, enigmático transmite tranquilidade, paz; nada ali está em excesso (meden agan: “nada em excesso”- a máxima grega). Pela posição do corpo e as ondulações no manto e nos cabelos, parece estar em movimento.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

As andorinhas e o mito

A Primavera e as andorinhas