TEMPUS FUGIT !

 Os conselhos dos clássicos

Se percorrermos os autores da literatura grega e latina encontramos máximas, que são conselhos, observações, que são avisos, frases inspiradoras, uma filosofia de vida que é de todos os tempos, que nunca passa de moda, que pode continuar a servir-nos de exemplo.

Por isso, voltar aos filósofos, aos poetas da Antiguidade greco-latina representa, sempre, um reencontro com o nosso eu mais íntimo. Ler os escritos dos poetas é mergulhar nos meandros da consciência humana, reflectir sobre a vida, sobre a nossa relação com o outro, com o mundo, é pensar no nosso papel neste planeta em que vivemos. 

E o planeta diz-nos que o tempo corre veloz!

TEMPUS FUGIT ! 

Pois ...  " o tempo foge"...  corre veloz e tudo devora...

Afirmava o poeta Ovídio na sua obra Metamorfoses:

Tempus edax rerum: o tempo, o devorador das coisas (Ovídio, Metamorfoses, XV, 230)

Nada resiste ao tempo voraz, tudo tem um fim.


Dizia o poeta:

Sed fugit interea, fugit irreparabile tempus,  Virgílio, Geórgicas, III, 284

O tempo foge e não volta... é  irreparabile..., isto é, não se pode recuperar

Por isso Horácio aconselhava que o aproveitássemos:

carpe diem : “Colhe o dia”

 Aproveita o dia que passa, vive cada momento

                                            

              Dum loquimur, fugerit invida 

 aetas:  carpe diem, quam minimum credula postero.

Enquanto falamos, já invejoso terá fugido o tempo;

colhe o dia, confiando o menos possível no amanhã.

Horácio, Odes, I, 11

 

TEMPO

Aproveitar o tempo!

Mas o que é o tempo, que eu o aproveite?

Aproveitar o tempo!

Nenhum dia sem linha...

O trabalho honesto e superior...

O trabalho à Virgílio, à Milton...

Mas é tão difícil ser honesto ou superior!

É tão pouco provável ser Milton ou ser Virgílio!

 ...

Aproveitar o tempo!

Desde que comecei a escrever passaram cinco minutos.

Aproveitei-os ou não?

Se não sei se os aproveitei, que saberei de outros minutos?!

 Álvaro de Campos  (11-4-1928) Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).




  

 Vários séculos antes de Cristo, o grego Heraclito observava que tudo corre veloz, nada permanece:

— πάντα ῥεῖ καὶ οὐδὲν μένει  (Heraclito)

Tudo flui e nada permanece

Ἡράκλειτος — filósofo de Éfeso (c. 545 - a. 475 a. C.), considerado o pai da dialética

 Segundo ele,

                ποταμοῖς τοῖς αὐτοῖς ἐμβαίνομέν τε καὶ οὐκ ἐμβαίνομεν, εἶμέν τε καὶ οὐκ εἶμεν.

Nos mesmos rios entramos e não entramos, somos e não somos

Pois, na verdade:

ποταμοῖσι τοῖσιν αὐτοῖσιν ἐμβαίνουσιν ἕτερα καὶ ἕτερα ὕδατα ἐπιρρεῖ·

Para quem entrar duas vezes no mesmo rio, outras são as águas que correm para ele   


Canção do dia de sempre

Tão bom viver dia a dia...
A vida, assim, jamais cansa...

Viver tão só de momentos
Como essas nuvens no céu...

E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...

E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...

Mário Quintana, Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2006.

 


 

Comentários

  1. Setembro está de saída, já entrou o Outono, a ele se sucede o Inverno, o Natal, um Novo Ano! Imparável o.tempo, o nosso tempo...

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