A MITOLOGIA E A INVESTIGAÇÃO POLICIAL

Frequentemente lemos notícias sobre operações da Polícia Judiciaria ou de outras forças de investigação baptizadas com nomes vindos da mitologia grega. Escolha interessante e nomes sempre apropriados ao tipo de investigação são a prova de que a Antiguidade e as suas histórias têm sempre uma aplicação adequada aos nossos dias e às mais variadas questões da modernidade... 

É que, muitas vezes, a dita modernidade é apenas uma ligeira mutação do antigamente... a história vai-se repetindo...

Muito recentemente, ouvimos e lemos na comunicação social a notícia de uma "Operação Hermes", uma investigação, de nível europeu, sobre uma gigantesca fraude de centenas de milhares de euros, envolvendo o IVA. Os implicados pertencem a vários países da UE e são, na sua maioria, empresários, comerciantes...

Trata-se, portanto, de negócios, de comércio, compra e venda... e é aqui que entra a representação metafórica, o deus da mitologia grega — HERMES.

Muito elucidativo este nome para esta investigação!

HERMES é filho de Zeus, do senhor do Olimpo. Está, portanto, entre os maiores!

São muitas as aventuras que lhe são atribuídas, fazendo dele um herói de força, determinação e astúcia.

Mal nasceu, numa caverna do monte Cilene, na Arcádia, onde Maia, sua mãe, se escondeu para o dar à luz, logo ele surpreendeu pelas suas artimanhas.

Diz-se que, logo no dia em que nasceu ele conseguiu libertar-se das faixas que o envolviam, sair do berço e chegar à Tessália, onde Apolo guardava o rebanho de Admeto, rei local a quem servia como pastor. Aproveitando uma distracção de Apolo, Hermes desviou-lhe uma parte do rebanho e, depois de atar um ramo à cauda de cada um dos animais, levou-os através da Grécia até uma caverna em Pilos, onde os escondeu. Só veio a devolvê-los mais tarde, não sem ter negociado com Apolo uma troca vantajosa para si próprio.

Foi por causa destas e de outras suas habilidades (nomeadamente a construção da primeira lira, a partir da concha de uma tartaruga, a invenção da flauta de Pã, a flauta dos pastores), que Zeus o nomeou seu mensageiro.

HERMES era representado com sandálias aladas, um chapéu de abas largas na cabeça (o pétaso) e com o caduceu na mão, que simbolizava a sua função de mensageiro dos deuses — tudo isso representa a sua vida de viagens, de andanças de um lado para o outro, cumprindo as missões de que era encarregado.

Deste modo, também pela sua astúcia, era considerado o protector dos comerciantes e dos ladrões. Era ele que guiava os viajantes e, por isso, pelas estradas eram erguidos pilares encimados por uma estátua com a sua representação.

Também há não muito tempo ouvimos falar da Operação Zeus, que envolvia empresários e militares de alta patente. Daí o nome do rei dos deuses.

Um pouco mais longe no tempo, mas não muito, a Polícia Judiciária investigou uma rede internacional a que chamou Operação Labirinto, tendo apanhado o "chefe" da rede que se chamava Ícaro.

É caso para dizer que este Ícaro foi apanhado na rede do Labirinto e não teve o pai Dédalo para lhe construir umas asas que o levassem, desta vez, a escapar, voando... É que uma outra complexa operação tinha decorrido (fora de Portugal), relacionada com esta, e que foi chamada Operação Dédalo.

Há mais tempo, em 2006, no título de um jornal nacional lia-se também: "Três dos quatro detidos no âmbito da Operação Ícaro em prisão preventiva".

 

Comentários

  1. Sempre atenta, sempre pronta a contribuir para a compreensão da mitologia clássica, usada com grande propriedade neste nosso tempo. Bem-haja! É sempre um gosto lê-la.

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