"Nulla dies sine linea"

Manter um blogue sobre Cultura e Línguas Clássicas afigura-se, à primeira vista, algo fácil, pois as línguas clássicas — Latim e Grego — e a cultura greco-latina são uma fonte inesgotável de temas, com ligação permanente ao nosso tempo, mostrando como somos os herdeiros e continuadores do "génio" grego e do espírito prático dos Romanos.

"Nulla dies sine linea" — seria uma frase/promessa que, no entanto, não me atrevi a fazer nestes meus rabiscos onde vou falando um pouco de temas que me fascinam, da minha paixão pelos estudos clássicos e, também, do meu lamento por ver como estes estudos estão esquecidos no nosso sistema de ensino.

No entanto, não é possível escrever todos os dias, as Musas nem sempre se dispõem a descer até mim, ocupadas que estão com outros coros para onde Apolo as conduz...

 

Parnaso — Apolo e as Musas de Rafael Sanzio (1511) — Palácio do Vaticano (imagem da internet)

 

A expressão "Nulla dies sine linea" remete-nos para o escritor romano Plínio, o Velho, que na sua Naturalis Historia (XXXV, 84), escrevia, ao falar do pintor Apeles (grego do séc. IV a.C.), que este dizia ter por costume não passar um dia sem exercitar a sua arte, sem traçar uma linha. Apeles quereria afirmar a importância do exercício constante, da prática — que ele submetia à apreciação popular, expondo as obras na rua, junto à porta de sua casa, para poder ouvir, sem ser visto, os comentários feitos pelo cidadão comum que passava, o que levava, por vezes, a corrigir determinados traços quando considerava justos os reparos feitos.

 Escreve Plínio:

Apelli fuit alioqui perpetua consuetudo numquam tam occupatum diem agendi, ut non lineam ducendo exerceret artem, quod ab eo in prouerbium uenit.

"Apeles tinha um costume sempre: nunca o seu dia estava tão ocupado que ele não praticasse a sua arte, traçando uma linha; desse hábito veio um provérbio"

Esta ideia tornou-se depois um provérbio, aplicado a outras situações e, especialmente, à escrita. A frase ganhou repercussão  no Renascimento, a partir da obra de Polidore Vergil de Urbino, um humanista italiano que passou grande parte da sua vida em Inglaterra a quem, entre outras obras,  se deve o Proverbiorum  libellus, de 1498, uma colecção de provérbios latinos.

Continuando as estórias de Apeles, conta-nos Plínio que, certa vez um artífice do calçado apontou um erro na sandália que Apeles pintara. Reconhecendo-lhe razão visto que a crítica vinha de um sapateiro, Apeles corrigiu o erro e voltou a expor a obra. No dia seguinte, o mesmo sapateiro, vendo que a sua observação tinha levado a correcções, destacou novo erro, agora no desenho das pernas. Indignado com o atrevimento, Apeles sai do esconderijo e grita-lhe:

 ne supra crepidam sutor iudicaret : não deve o sapateiro julgar para lá da chinela
 
Também esta expressão passou a provérbio: não vá o sapateiro além da chinela, quer dizer, "não fales daquilo que não sabes"

Em português temos outras equivalentes, como "quem te manda a ti, sapateiro, tocar rabecão".

Há quem tenha opinião sobre todos os assuntos e fale sem ter conhecimento... algo muito comum nestes nossos tempos de comentadores...


Daqui surge o vocábulo ultracrepidarianismo (formado da junção de ultra e crepidam), que foi eleito como palavra do ano, na Bélgica, em 2021. Os ultracrepidários  falam sobre tudo, dão sentenças sobre assuntos dos quais não percebem nada... é o que mais abunda por aí...

Mas se estivermos atentos ao que se vai escrevendo, não faltam referências à Antiguidade greco-latina, exemplos tirados da literatura, de valores que permanecem actuais, de confronto entre o passado e o presente

No seu artigo de Opinião no jornal Público de 14 de Julho de 2026, a que deu o título Ensinemos a Curiosidade (ver aqui) , escrevia Pedro Nor­ton :

Numa altura em que a escola parece por vezes per­dida num labi­rinto buro­crá­tico e pro­ces­sual, numa altura em que, mal­grado os esfor­ços bem-inten­ci­o­na­dos de mui­tos, parece blo­que­ada por for­ças con­tra­di­tó­rias que se anu­lam e ame­a­çam fazer per­der o sen­tido último do seu pro­pó­sito, tal­vez não seja má ideia regres­sar a esta ideia sim­ples: ensi­ne­mos a curi­o­si­dade.

 Pois, segundo ele:

A curi­o­si­dade é, de certa forma, a fun­da­ção de todos os sabe­res. A curi­o­si­dade é a linha impro­vá­vel que une o fas­cí­nio pela Arte ao fas­cí­nio pela His­tó­ria, o fas­cí­nio pela Astro­no­mia ao fas­cí­nio pela Lite­ra­tura. A curi­o­si­dade é a pré-con­di­ção para o conhe­ci­mento.

Dando exemplo de nomes que ficaram na história por terem sido atingidos pelo vírus da Curiosidade e se destacaram

Pela von­tade indó­mita de tudo saber. Pela von­tade de tudo apren­der. E não me refiro, note-se, a saber uti­li­tá­rio ou prá­tico. Falo da curi­o­si­dade sem rumo. Falo do saber pelo saber. Falo do apren­der pelo apren­der. Falo do tra­ba­lho infinito de per­se­guir mea­das sem fio. Falo da von­tade tão mara­vi­lhosa como qui­mé­rica de bus­car o saber uni­ver­sal e de o cap­tu­rar num livro, numa enci­clo­pé­dia ou numa bibli­o­teca.

Entre os exemplos apresentados, destaca-se Plínio, o Velho, sobre quem escreve:

"Plí­nio, o Velho, almi­rante da frota de Miseno, mor­reu de curi­o­si­dade no ano 79 da nossa era. Tal­vez seja útil expli­car melhor. Autor, filósofo, coman­dante mili­tar, natu­ra­lista, Plí­nio vivia a uma dis­tân­cia razo­á­vel de Pom­peia quando se ini­ciou a erup­ção do Vesú­vio. E não terá pen­sado duas vezes. Man­dou pre­pa­rar uma pequena embar­ca­ção de nove homens e fez-se ao mar com a inten­ção de estu­dar e regis­tar de perto e com todo o rigor científico um fenó­meno natu­ral a todos os títu­los exce­ci­o­nal. Para um natu­ra­lista, a ten­ta­ção era irre­sis­tí­vel. Irre­sis­tí­vel e fatal, acres­cento. Segundo nos conta Plí­nio, o Jovem, seu sobri­nho, terá sido sur­pre­en­dido por uma gigan­tesca nuvem de cin­zas e gases vul­câ­ni­cos que aca­ba­riam por ditar a sua morte. Não sei se a curi­o­si­dade matou o gato, mas parece facto assente que terá sido res­pon­sá­vel pela morte de Plí­nio.

Para­do­xal­mente, se é certo que Plí­nio deve a morte à sua insa­ci­á­vel curi­o­si­dade, tam­bém parece ine­gá­vel que foi gra­ças a esta que ganhou a imor­ta­li­dade. Ou não fosse ele o autor da Natu­ra­lis His­to­ria, uma enorme enci­clo­pé­dia de 37 volu­mes, que sobre­vi­veu até hoje e que tinha a ambi­ção, nada mais, nada menos, do que reu­nir numa única obra todo o conhe­ci­mento até então dis­po­ní­vel. Da astro­no­mia à arte, pas­sando pela zoo­lo­gia, pela botâ­nica, pela geo­lo­gia ou pela mine­ra­lo­gia."

 

No mesmo jornal Público, de 1 de Outubro de 2016 lemos um texto/ensaio de Bruno Vieira Amaral sobre o tema do dia — a saída de Cristiano Ronaldo da selecção. O título remete-nos logo para referências clássicas:  Cristiano Ronaldo enquanto herói trágico.

Começa com a referência a Aristóteles:

No conceito estabelecido por Aristóteles na Poética, o herói trágico não pode ser um ser perfeito a quem sucede uma desgraça, que passe abruptamente da boa para a má fortuna porque esse facto, segundo o filósofo, não suscita nem terror, nem piedade no espectador. O castigo de um santo seria apenas martírio e nada teria de edificante ou instrutivo e até causaria repulsa. Da mesma forma, o castigo de um malvado também não serve a tragédia porque “não parecerá terrível nem digno de compaixão.

Não esquece os exemplos da tragédia grega e os seus heróis:

Só que o desejo de não se render ao tempo é muito humano, como humano é o desejo de Édipo em descobrir a verdade e é humano o desejo de Antígona em honrar o irmão.

E as consequência da insensatez humana ao desafiar os deuses (a ὕβρις / hybris):

Perante essa realidade, aceitar os limites é sábio mas não é trágico.
Trágico é desafiá-los contra toda a sensatez, contra os seus próprios interesses. Trágico é travar um combate do qual não se pode sair vencedor e, mesmo assim, insistir em travá-lo, não por galhardia ou coragem, mas por ignorância
. (texto completo aqui)

 

A Cultura Clássica, as raízes da nossa identidade, o passado sempre a inspirar o presente.

Comentários

  1. Mesmo através de um percurso algo laboríntico, os clássicos levam-nos sempre a bom porto. Foi, mutatis mutandis, o que se passou aqui, com o interessante e rico texto

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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